O Lugar das amizades



O lugar seguro da amizade com os outros é aquele sítio onde conseguimos perceber que essa amizade ganha corpo e dimensão. Quando pequenos gestos e palavras querem dizer muita coisa e a maior parte das vezes nem é preciso falar para nos fazermos entender. Sucede, porém, que a amizade, como um troféu ganho numa competição, não é para todos. Há pessoas que conhecemos e com quem imediatamente nos compatibilizamos. Com outros custa mais. Às vezes é com quem custa mais encarreirar afectos que as amizades são construídas com maior solidez. Como se a competição verbal e comportamental inicial fosse uma expiação do contraditório, a quem desfere golpes subtis tentando testar o outro, apercebendo-se das suas fragilidades para opor o contrário ou discordante. Quando sucede uma única vez e a coisa, como tal, morre, a amizade perdura. Quando a competição permanece, continuamos a procurar o lugar dessa amizade embora essa nunca seja realmente construída.
Certas pessoas insistem em trazer o seu próprio sofá para as amizades, gostam de chegar ali fazendo valer uma, a sua, posição confortável, sentando-se como quem se abriga, abrindo alas para poder exteriorizar as suas valências. Apreciam ficar bem quietos observando os outros circular, olvidar opiniões, recuperar fragmentos da imaginação, interferindo, construindo, impávidos, conscientes de que a sua posição, embora aparentemente pacífica, induz nos outros uma espécie de subserviência que lhes afaga o ego e a postura, como se fosse dito: eu estou bem.
Ora, alguém que promove uma valência pessoal numa amizade esqueceu-se, ou ignora, o verdadeiro lugar desta. Esquece a possibilidade dual (ou ainda maior) de abrigo erigido. Não pode ser chamado amigo aquele que ignora o outro como se estivesse a assistir sozinho a um jogo de futebol em que, por exemplo, o Sporting ganha por três a zero ao décimo minuto da primeira parte. As amizades não são lugares de observação e a arrogância absoluta comum ao adepto que vê o seu clube dar uma 'cavasada' no adversário enquanto emborca cervejas também não é para aqui chamada.
De vez em quando encontramos pessoas que tentam a todo o custo, e erradamente, usar o mesmo sofá em cada amizade em que empreendem espaço, esquecendo-se de empreender tempo. Um curto espaço de tempo. Formatados para a vitória, vociferam com alarde as proezas do clube de futebol da sua eleição e, pelo caminho, sentadinhos, vão pedindo umas imperiais e uns tremoços à mulher, às mulheres.
Alguns portugueses andam metidos nisto de se achegar aos outros sem qualquer trabalho. A razão disso é o pouco tempo que têm para pensar. Transportam as suas formatações empresariais e aplicam o conceito à amizade, mas não só. Todos os seus actos dependem desse timbre, de uma afinação para a vitória ao custo da economia de meios, regulados para recuperar valores monetários, enganados com a revelação que o papel essencial da amizade tem, viciados no conforto da sua própria personalidade, recusando a demora, a empatia e a compaixão reservada aos gestos simples. Quando uma pessoa fica sentada muito tempo no sofá tende a tornar-se intolerante, ou demasiado exigente. Tende a engordar.
O problema destes é não saberem o que exigir. Como desconhecem o verdadeiro lugar da amizade, procuram espaços em outros lugares distantes. Infelizmente, como não saem do mesmo sítio, tornam-se obesos. Acolhem algumas amizades desde que estas sejam tal e qual o desenho dos seus generosos empreendimentos financeiros, das suas consecuções, do valor das suas contas bancárias. Esquecem-se da comoção e das lágrimas que os amigos deixam cair quando os momentos particulares, difíceis, batem à porta. Tenho muita pena desta gente, pois recusam petulantemente a ideia do que os outros são, convictos de que o seu sofá é a melhor e mais confortável poltrona do mundo – tanto quanto o espaço contíguo. Como se o lugar da amizade pudesse ser radiografado e alvo de um diagnóstico exacto, condicionado a uma identidade (idêntico) única e ou consequência de uma causalidade programada, estruturada. Desconhecem que a amizade é muito mais vezes fruto de acasos, e que essa simplicidade do encontro, da descoberta num mundo imperfeito, faz desse lugar um espaço de tranquilidade e zelo. De seriedade e aceitabilidade. De tolerância e tenacidade, onde as palmadinhas nas costas não valem nada. Um lugar onde a ociosidade não perdura. A amizade, enfim, é um lugar de trabalho e revelação onde a conversa preliminar delineando um comportamento calculado não funciona. O comércio, a ganância, a expectativa, ficam à porta do lugar das amizades. A um amigo basta um abraço sincero de dez em dez anos. Depois a conversa tardia escorre suavemente acompanhada dos vinhos velhos e novos, das refeições frugais e encorpadas, dos jogos de futebol que acabam com reviravoltas históricas, como as derrotas do Sporting frente ao Benfica. Quando menos se espera, estas ocorrem.

© Ruben P. Ferreira

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