Casas [1]



Gosto de chegar a certas casas. Como quem gosta de comer uma bola de gelado de um determinado sabor, um bolo com ou sem creme, um salgado, uma refeição acompanhada de um vinho raro, aprecio entrar pela porta da frente de algumas casas e começar a ocupar e usar espaço sem pedir licença, como se o espaço fosse um dado novo com que podemos contar para cada nova possibilidade de aprendizagem. Um desses lugares de eleição e uso é a casa da minha avó. Gosto de lá chegar sentindo repentinamente o cheiro da terra molhada (quando chove), a frescura do orvalho logo pela manhã ao acordar, a espessura da vegetação verde, alta, cujos caminhos ficam marcados depois de os atravessarmos uma e outra e outra vez, para trás e para a frente – há pouco tempo tentei fazê-lo em outro lugar nos arredores de Lisboa, onde o capim fresco também cresce e prolifera, tendo conseguido traçar um caminho imaginário extenso e variado à luz de uma plácida luminosidade, reduzindo-se até ao crepúsculo. Por pouco não enfiei os pés num lago escondido pela penumbra enunciada. Ultrapasso as cortinas de peças de plástico fixas por pedaços de arame dobrado, ao abrir fazem aquele barulho de castanhas a saltar no fogão, penduradas sobre a ombreira da porta, e vou para dentro daquelas ‘quatro’ paredes. Acontece a minha avó assar essas castanhas de maneira semelhante ao barulho que faço quando passo a porta, lembro-me disso quando o fogão de ferro alimentado a lenha fumegava pela chaminé lá para fora, a temperatura subia, a comida era ali confeccionada com amor. Essa é apenas uma das muitas imagens com que sou presenteado sempre que ali vou, embora o fogão tenha sido substituído por um mais moderno, jazendo lá fora como ruína junto a uma parede. Jogo com o corpo subindo depressa a escada metálica em espiral e acedo ao primeiro piso, corro pelos corredores e paro no meu quarto, com janelas abertas para uma varanda que rodeia a casa, como um terraço. Observo a luz entrar, volto aos corredores, entro no escritório, nos outros quartos, nas salas que outrora receberam muita gente a discutir o sentido das suas vidas, apenas questões menores, aconchegados entre mobílias bem desenhadas dos anos trinta e quarenta, a luz entrando atravessando todo um campo de árvores agora despidas, sem folhagem, deixando-se ver à transparência todo o espaço vizinho rodeando aquele lugar.
O que é engraçado nisto de gostar de estar e chegar a certas casas é o facto de nos afeiçoarmos às coisas e aos lugares da nossa imaginação, que não sendo completamente nossos, num determinado momento da vida, passam a fazer parte de um qualquer repositório de memórias, onde acorremos por nostalgia e saudade, ou por gostarmos mesmo de deambular por tais sítios quando não temos mais nada para fazer, quando procuramos a tranquilidade para entender o gastar do tempo. Isso levanta a questão primordial da propriedade, daquilo que podemos considerar completamente nosso, assim-assim, ou partilhado. Há lugares que nunca serão nossos mas que se fazem propriedade privada inesperadamente. Passam, assim, a ser um bocadinho nossos, mesmo sendo propriedade dos outros – como uma casa que em tempos visitei, no centro da vila de Constância, com diversos pisos, lareiras e salas, pátios, propriedade de uma família de uma pessoa amiga, que também considero um pouco ‘minha’. O ambiente bucólico em que ambas as casas repousam (a casa da minha avó e a casa de Constância) faz-me inventar histórias com procedimentos antigos.
As carroças carregadas de fardos de palha percorrendo o trilho ladeado de oliveiras, as carroças cheias de azeitonas levadas para a adega, onde eram espremidas, os aventais das mulheres com bolsos onde guardavam os seus pertences, os carreiros e as planícies e vales cheios de gente e de homens com boina, percorrendo os carreiros estreitos, parados admirando a cor e a luz inundando os campos de trigo quase secos, de um amarelo torrado, enquanto as mulheres sentadas e os homens fumando mais um cigarro aguardam pela melhor hora, aposta ao calor, para continuar a trabalhar.
O espaço onde os coches, parados, evocavam outros tempos, de chegada à vila, os arreios e afins arrumados em armários envidraçados, as peças soltas de metal para reparação e substituição, o piso empedrado gasto, os vinhos velhos arrumados num canto lembrando a raridade daqueles procedimentos, os inúmeros lanços de escadas, a passagem de sala para sala para quartos avistando o rio e a paisagem definida numa linha prateada reflectida na água.
Seria incapaz de viver sem, por exemplo, ir a casa da minha avó respirar. Quando digo que gosto de ir lá, faço-o em tom confessional, como se diz do amor tido à mulher da nossa vida. É um significado difícil de reter apenas na conjugação de um verbo como o gostar. É forçoso ficar, reparar, degustar, observar, sentir, apreciar, beber, comer, correr, dormir, acordar, pequeno-almoçar, almoçar, lanchar, jantar e, por fim, cear. Como se vê, uma boa parte do tempo é passado a comer, a observar as paisagens, as pessoas, os rituais. Começo pelo bacalhau com todos, incluindo o grão de bico acabado de colher, o cozido à portuguesa, a dobrada – quando se podia fazer –, o frango estufado, as carnes dos porcos acabadinhos de matar preparadas pelas minhas tias e primas em tanques de pedra cheios de água onde lavavam as peles para os enchidos, protegidas da humidade e das chuvas. Os enchidos, os chouriços, as farinheiras pendurados na adega, secando. Até os bifes com batatas fritas e o arroz branco sempre souberam melhor ao palato na casa da minha avó do que em outras casas. Seria por culpa da água? Talvez por culpa das centenas largas de metros que, após cada refeição, tínhamos para percorrer a pé e de bicicleta, esforço que acabava por chamar mais a fome. Como desfazer pinheiros, construir cabanas e andar de bicicleta até ser noite cerrada, quando se chegava a casa para tomar um banho enorme e demorado, a tempo de evitar uma daquelas noites gélidas do centro do país – a casa da minha avó também aí fica. A minha avó costumava fazer igualmente, com carinho e denodo, tartes de amêndoa caramelizada (torrada) na cobertura, uns bolinhos de amêndoa e outros de coco, pães-de-ló altos (elevados), salames de chocolate, tortas de chocolate e tortas com creme amarelo, pudins. Reafirmo o tempo verbal no passado, pois agora a minha avó envelheceu. Havia quem ali passasse de propósito para dar dois dedos de conversa levado por amizade – pois a minha avó sempre foi muito amiga dos seus amigos, dos amigos do filho, dos netos –, sendo-lhe oferecida a belíssima tarde de amêndoa, guardada no porta-bagagens, isto depois de ingeridos pelos menos dois exemplares daquela acompanhados de café, torradas, carnes assadas e espetadas de carne e peixe – eram inúmeros os convites para jantar e ficar. Ela ainda sorri quando as pessoas a visitam, mas já não faz tartes de amêndoa com a mesma frequência e vagar. Estar em casa da minha avó significa(va) apanhar peras da árvore e comê-las quando apetecia. Um dos pontos altos do dia era poder acordar e beber leite fresco saído há menos de duas horas de uma vaca, desnatado, embora a nata a criar uma película, nata gorda que depois ela usava para fazer doces. Ficar lá comporta(va) um conjunto muito vasto de acontecimentos de que a ementa gastronómica era o género recorrente, embora as coisas não ficassem por aí. Recordo com saudade os primeiros livros de banda desenhada que li por toda a casa, incluindo a generosa casa de banho, avistando o exterior povoado de vegetação e luz. Os ‘Tio Patinhas’, Donalds’, ‘Mickeys’, o ódio visceral ao Gastão, o gozo de ver os três sobrinhos de Donald, o Pato, endiabrados, usufruírem de uma assertiva inteligência, ausente dos neurónios do tio. Os livros de aventuras, a maior parte emprestados, lidos de enfiada, alguns livros da minha bisavó resgatados de um lugar impossível de recordar, livros de ficção científica, outros romances e, por vezes, ensaios e poesia, com capas usadas, assinaturas ilegíveis, cujo gosto ainda mantenho em cada visita que faço à casa dos alfarrabistas – do Luís Gomes, da Livraria Artes e Letras, e de outros. O material de pintura na garagem e algumas destas telas expostas na parede por caridade, bem como os rebuçados, os bolos de pastelaria, os chocolates, vinha tudo da cidade – como se fosse lá longe –, quando a minha avó ia às compras e eu ficava a divertir-me sozinho, ou com os amigos. O meu ‘trabalho’ principal era partir muito cedo de manhã e chegar perto da uma da tarde para almoçar. Dar dois beijos de agradecimento aos meus avós, se com muito sono dormir uma sesta rápida e voltar às lides anteriores reproduzindo um imaginário paralelo ao dos livros de aventuras dos Sete, dos Cinco e de Uma Aventura. A saída repetia-se até à hora do lanche, altura em que se comia o pão que um padeiro ainda leva(va) todos os dias, embora tenha descoberto recentemente (há menos de cinco anos) uma padaria na cidade, propriedade de uma senhora espanhola, que vende pão tão bom quanto aquele, muitas vezes coincidindo a minha chegada entre portas com uma fornada acabada de cozer – daí o gasto abusivo de pacotes de manteiga para dar vazão à fome e ao pecado da gula. Outro ponto alto: as idas para a ‘floresta’, um aglomerado de árvores no final do vale, e que mais tarde descobri ser apenas um pinhal e um eucaliptal com extensão generosa de alguns quilómetros. Sair para brincar numa casa em ruínas, levar a bicicleta para lugares insólitos e tentar devolvê-la à vida depois de quedas abruptas, a corrente fora do lugar, os pedais por vezes partidos, quando percorria inconscientemente carreiros com poucos centímetros de largura a velocidades pouco aconselháveis, diria mesmo, vertiginosas. Os meus joelhos comprovam a veracidade cruel de cada queda dada, sobretudo, de manhã, quando o orvalho espalhado pelo capim funciona como película deslizante que, em caso de risco tomado e seguido, apenas permite-nos parar de cair quando as rodas da bicicleta param por completo e nós, por cima ou por baixo do veículo, ali ficamos deitados a tentar adivinhar como chegar ao lugar a quem sempre chamámos casa para fazer o curativo. A construção de casas: outro exercício aparentemente funesto, como cair de bicicleta, de engenho assaz. Erigir espaços de madeira com pregos, martelos e alguma precisão divertia-me como divertia todos os miúdos da minha idade com a mesma possibilidade. Havia uma figueira (entretanto, abatida) no lugar onde agora foi construída uma maison de piso e meio, portadas verdes, paredes pintadas de amarelo ‘casca de ovo’, o dito estilo ‘português suave’ com cantaria de pedra nas janelas, pilares suportando um frontão desnecessário e telhado com telha lusa encarnada, ridícula. A árvore tinha troncos grossos, era propriedade do pai do dono da actual casa, o senhor Silvino, sendo possível ler ali dedicatórias dos filhos e dos netos gravadas a canivete, ou gravações de ‘amo-te’ naqueles pedaços de madeira escorregadios com musgo. Tapámos muitas dessas dedicatórias com pavimentos improvisados de madeira feitos com tábuas e outros pedaços de madeira apanhados em lugares improváveis, com portas e janelas com dobradiças onde entrar sujeitaria qualquer pessoa sana a temer pela sua própria vida. Éramos felizes, quer eu, quer os meus primos, quer outros que ali passavam, alguns para fazer pontaria a maças com ‘pressões de ar’. O melhor de tudo, contudo, era poder chegar a casa para dormir aconchegado sobre lençóis e vastos cobertores. Ver filmes durante a tarde e acabar o dia noutra aventura sem hora marcada, construindo outras casas com canas e pedaços de vegetação no interior das planícies, perto de linhas de água e poços onde acabávamos por molhar os pés, as botas, a roupa, tudo. Chegando perto de uma casa em ruínas no meio da ‘floresta’ onde inventávamos histórias, percorrendo os trilhos à volta dos eucaliptos novos ainda baixos. A beleza de se chegar a casa dá vontade de adormecer num colo para acordar no dia seguinte como se os anos não tivessem passado e a velhice não tivesse tomado conta da pele enrugada – e nada tivesse contado. A memória da audição do silêncio e da tranquilidade obriga-nos a esperar para voltar a ver tudo como dantes, procurando na quietude um espaço de entrosamento com o mundo, que revigore e permita suportar quer dificuldades quer coisas tristes. Como a velhice. A partir de certa altura na vida, então crescidos, iniciamos novamente o processo começando a chegar a casa de outras pessoas e apercebemo-nos que a diferença entre as nossas casas e a casa delas é o amor que nos tinham ali e o amor que nos têm agora, aqui, a par do espaço ocupado, umas vezes diferente, outras menor, outras maior. Nem toda a gente vive em quintas, em casas gigantescas no centro de uma vila, onde os tempos de outrora são evocados a cada visita, ao acender as lareiras enchendo a casa novamente de pessoas que ali se divertem, brincando com o tempo e a vida de agora. Há quem faça da sua casa uma verdadeira balbúrdia, mesmo sendo um pequeno apartamento num arredor da cidade, ou fora desta. Seja porque razão for, há pessoas de antes e pessoas de agora que ousaram fazer da sua casa uma plataforma de conhecimento e partilha de identidades, de experiências, da gastronomia aos jogos da Play Station, passando pelo inefável amor, pela má-língua pura e simples, pela mágoa, a felicidade, a ternura, a partilha. Algumas pessoas têm uma disposição especial para receber, como se ‘a porta aberta serventia da casa’ fosse uma expressão funcionando ao contrário. Como a minha avó ainda tem. Como outras pessoas com quem vou estreitando laços procuram.
Gosto de apreciar convidados, amigos e familiares partilhando o gosto de comer, de jogar e conversar. De apenas estar à lareira quietos, a ouvir o sono chegar. A casa da minha avó (é) era assim. Verdade verdadinha é que algumas casas vão passando de mão em mão e vamos reconhecendo na sua morfologia, no que identifica tais espaços, seja a qualidade da luz natural invadido os compartimentos, sejam os revestimentos, as áreas generosas, a localização ou outros detalhes menos visíveis, o que nos constitui. O espírito de receber e de voltar a acarinhar os outros com refeições e outros mimos volta quando mulheres e homens mais jovens aplicam a si a mesmos a fórmula que outros familiares e conhecidos aplicaram no passado. Recebem, convidam, dão as boas vindas a ‘todos os que ali forem por bem’, é assim a frase gravada num azulejo em casa da minha avó. Gosto de fazer jus à máxima, voltando para casa dela quando posso. Pois é ali que ‘respiro’, onde a tranquilidade me devolve a paz mental em certos momentos diletante. Podeis ter a certeza que uma boa parte desse sentimento esteve desde sempre fortemente relacionado com a doçaria conventual e afins. Admito, sou tão guloso quanto a ‘Floribella’ é uma manhosa do pior.

© Ruben P. Ferreira

0 comentários:

 

Quantcast