Estado de certas e determinadas coisas



Em Portugal, a venda de jornais e revistas continua em queda acentuada. Nem o fenómeno semanário pode ser excluído, abarcando revistas que outrora foram marcadas por picos de vendas assinaláveis - foi o caso da revista Visão, como é agora o caso da revista Sábado. A maior parte das publicações apresentam quebras no número de exemplares vendidos porque as pessoas recusam liminarmente a compra. O motivo? Uma parte da culpa é da crise, mas o problema, persistente, vem mais de trás. É uma boa lição para os sabichões (proprietários de grupos de comunicação, directores e editores de jornais e revistas) que consideraram possível fazer jornais com poucos recursos financeiros e recursos humanos não-qualificados: os estagiários e os amigos. Ora, pouparam nos custos excluindo uma boa parte dos profissionais do sector com verdadeiro valor, que acabou em casa ou a fazer outras coisas. Perdidas as contribuições que tais profissionais competentes podiam oferecer para qualificar o sector, captando leitores comuns e novos leitores, apostaram na evolução de gente com evidentes dificuldades de aprendizagem, com deficiências na sua formação cultural e pessoal. Pessoas sem 'alma' jornalística', técnicos das notícias, incapazes mentais procurando um espaço de subsistência que tornou imediatamente visível a sua incapacidade. Obviamente, houve, há, excepções. Raras. Depois de o jornal O Independente ter perdido a sua identidade, de a sua equipa ter sido desmembrada e espalhada por algumas redacções de alguns jornais e revistas, a imprensa portuguesa perdeu uma boa parte da sua qualidade. Casos isolados de bom jornalismo, que interessa, pertinente, ou não aparecem ou aparecem e desaparecem rapidamente. Pesistem a revista Atlântico, a revista Visão - apesar das quebras nas vendas -, a revista Sábado - que recrutou uma parte de ex-funcionários d'O Independente. O jornal Expresso tentou desde sempre (ainda tenta), obstar à irreverência e ao risco corrido pela restante imprensa, pelos semanários concorrentes (O Independente, antes, o Sol, agora - com nome de outrora), mas cedo se percebeu qual teria melhores chances de prevalecer. O português é um ser temível, pois aprecia a leitura arriscada e irreverente, embora prefira dizer aos amigos ser uma pessoa respeitadora do próximo, criticando quem critica os outros, quem adopta o tal ponto de vista oposto. O Independente foi um projecto fulcral, sem percursores na actualidade. O senhor Balsemão sabe disso, por isso, por ser um dito apreciador in-sito de media, é refém de si próprio e da sua própria ideia de imprensa. Os ‘sabichões’ que julgavam ter ‘descoberto a pólvora’ com a fórmula: recursos humanos pouco qualificados a custos reduzidos + 'jornalismo de secretária' (redução dos valores monetários atribuídos às editorias) = sucesso extraordinário; têm assim a resposta do mercado às suas propostas milaborantes. O jornal Expresso fez-se renovar (gráfica e organicamente) mas a sua orgânica hierárquica e funcional mantém-se semelhante à de um organismo público - uma autarquia, um instituto, um ministério. Certas pessoas escrevem ali pois detêm o seu 'lugar cativo', o acesso às chefias editoriais é precário, os vínculos são sempre recusados à partida, excepto com alguns 'escolhidos', forçando potenciais colaboradores a penosos períodos de estagnação profissional. Algumas pessoas escrevem ali por deterem qualidade e mérito próprio - a maior parte acredita nisso. É tudo muito difícil, mesmo quando certas ideias podem ser consideradas potencialmente interessantes e exequíveis. De editoria em editoria, os e-mails e as reuniões com colaboradores sucedem-se. Os projectos são analisados, aparentemente aceites e, por fim, inexplicavelmente abandonados. Os pedidos para que sejam tomadas decisões sobre propostas de temas são ignorados, recusados, adiados para um período melhor (quando o número de páginas de publicidade permitir a ousadia). Tempo que nunca chega. Outras ideias propostas são fixas na mente dos editores interessados para uso privado num momento apropriado, ignorando a verdadeira autoria. Depois, abrimos o jornal, lemos dois ou três textos realmente relevantes e concluímos que o resultado de toda aquela espessura de papel resulta mal. As chefias do jornal Público, que desconheço, despedem gente para poupar aos accionistas o ónus de ter uma equipa cara e competente. Qual o objectivo? Mais e melhor jornalismo com menos recursos humanos, um critério ridículo, embora aplicável a uma empresa de qualquer sector da economia. O sector da imprensa não é um qualquer sector da economia, pois o trabalho realizado pelos profissionais reflecte-se imediatamente na qualidade do produto. O Diário de Notícias (e o Jornal de Notícias), que também desconheço, alguns jornais online (como o Diário Digital, onde escrevi opinião), contribuem ainda para um jornalismo que tenta ser plural e diversificado. Verdade seja dita, o produto mantém ainda alguma identidade, tendo sofrido igualmente com os tais cortes para melhorar as finanças, apesar de neste caso serem mantidos alguns bons colaboradores - o suplemento Dna, por exemplo, manteve circulação enquanto o dinheiro pagou as boas reportagens, os bons fazedores de opinião e escritores e o risco de se concretizarem certos projectos. Neste caso específico, a maior parte dos editoriais, inenarráveis, de Pedro Rolo Duarte (que agora ocupa um cargo executivo no grupo), foram a única coisa a lamentar – embora a sua capacidade para dirigir tivesse sido bem melhor. O problema persistente nestes grupos de media é sempre o mesmo: o acesso complexo às editorias, pouco ou nenhum dinheiro para pagar aos colaboradores. Quem consegue a proeza de se tornar redactor afina, afinará, pelo diapasão em vigor. A culpa alegada pode ser atribuída à crise de publicidade. Se esta ainda permanece é porque as equipas de comerciais não sabem fazer valer o seu poder, ou então perderam esse poder perante a negação de qualidade aceite e difundida pelos seus pares. Afinal, é a imprensa que escolhe quem anuncia nas suas páginas. Se o produto tiver qualidade todos os anunciantes quererão ser participantes dessa equação. Com a introdução do online, os custos de impressão reduzir-se-ão, excepto a definição do que é um bom jornal: boas reportagens, notícias credíveis, incómodo, irreverente, capaz de suscitar no leitor uma atitude participativa, uma identificação. Quem pensa que o online diminui drasticamente os custos desconhece aquilo que faz um bom jornal. Mas só em Portugal é que certas e determinadas pessoas representando certos e determinados órgãos de comunicação social, julgam ser possível manter a qualidade do seu produto a custos reduzidos ou nulos. Enquanto essa ordem de grandeza for dominante, será difícil equacionar outros cenários. Felizmente, existe a blogosfera, onde diariamente se dão lições de jornalismo a custo zero. À distância de um clique. [Ruben P. Ferreira]

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