Viagens [1]

Viajo de comboio e um casal de ciganos ocupa duas cadeiras perto de mim. Vêm ambos visivelmente alterados, os olhos de ambos estão molhados, ela soluça, contendo o choro para não perturbar outros passageiros. Ele parece aceitar a situação com resignação, cabisbaixo, inclinando-se sobre ela, os olhos descaídos sobre o chão, as mãos calejadas e sujas, as unhas roídas, segurando sobre as pernas um saco de plástico pequeno, cor-de-laranja, com documentos arrumados lá dentro. Fixo o meu olhar no livro que tinha em mãos, o segundo volume da obra completa de Jorge Luís Borges. Com pudor, vou desistindo de tentar perceber a razão daquela cena, devorando cada página com vertigem. Lia, a propósito de uma nota de Coleridge, ‘escrita no fim do século XVIII ou no princípio do século XIX’: “Se um homem atravessasse o Paraíso num sonho, e lhe dessem uma flor como prova de que lá tinha estado, e se ao acordar encontrasse essa flor na sua mão… então, o quê?” Como eles pareciam estar muito longe do paraíso, esvaziados de ‘alma’, de ser, o homem partido perante o choro miudinho da mulher, uma ladainha cigana que foi aumentando, copiando da velocidade do comboio o ritmo, a permanência, aliviando, parando quase por completo, o choro retomando a sua velocidade, a cabeça dela tombando sobre os ombros dele, abafando o som da sua voz que repercutia um discurso imperceptível, interior, a querer carpir do espaço comprimido no corpo a dor que este aceitava. Há povos com esta necessidade sublime de cantar a morte (e o que é doloroso), para desse modo elogiarem a vida, entoando cânticos, ‘poesia’ improvisada. Provavelmente, prefeririam sonhar, poder acordar com uma flor na mão, uma possibilidade de paraíso imaginado, por instantes, embora o significado da flor colhida nas suas mãos nada pudesse conceber e alterar, pois o paraíso seria apenas metáfora, um recurso para cobrir aquele lamento. Resíduo recuperado para enganar a memória. “Como é que isto pode estar a acontecer, isto não é verdade”, dizia ela, como se quisesse voltar a dormir e sonhar, podendo acordar novamente para a realidade, teria sido um pesadelo cujo acordar dissimularia em alívio a nudez da verdade. Quando as mãos fortes dele seguravam o seu pescoço e rosto, limpando as suas lágrimas, aconchegando as mãos completas de anéis em todos os dedos, envolvendo-a por fim num abraço pequeno demais para compensar a razão de todo aquele lamento. Chorando com semelhante denodo. “Então, o quê?”, dizia Borges. Nada. “Talvez a história universal seja a história da diferente entoação de algumas metáforas”, completou. Como eles gostariam que a incerteza inesperada nunca pudesse ter sido uma melodia tão triste. [Ruben P. Ferreira]

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