"1. Fala ao Espelho (1)"

"Vieram leões, depois chegaram lobos,
uma floresta tão densa, que nem um lugar liso havia
onde os pés e as mãos não se arranhassem no fugir,
sufocada no ar que não entrava,
um lago largo de tojo com muitas flores amarelas.
Cercada estive muito de noite e muito tempo,
numa roda de bafos e uivos mais que quentes,
escaldaram-me os olhos em paredes altas de água que fervia,
as mãos e a garganta presas em tenazes.
Por ele chamei e os seu responder ouvi,
som adiado de uma légua, cem ou mil,
do outro lado dos montes e do caminho.
Que há para lá de ti, espelho em que me vejo rainha
tomada nos braços muitas vezes?
Onde se esconde agora o fogo do olhar das feras
diluídas quase
na sombra do polegar gelado?
Acordei hoje como ontem tinha acordado
banhada em medos muito húmidos.
À frente de ti me sento, com o tempo todo vazio em volta,
e aquela que em ti vejo não sou eu nem outra.
Culpada. Mas qual é a culpa que tenho?
Ele me quis num dia feito muitos anos, prolongado de mês em mês,
sem que nunca se rompesse, por pessoa nem por nada,
o nosso amor de sempre, cumprido,
escorregando desse primeiro dia quase esquecido
até ao último que ninguém pode saber.
Eu o quis com muito querer, pelos anos sem fim que foram nascendo
dessa hora igual ou diferente, sem eu bem querer.
Também cada criança nasceu dentro de mim depois da outra
sem explicação para lá do assim ser,
como as flores se abrem quando a luz é muita.
E a cada uma se pôs um nome, sem pressa de escolher.
Estou fechada neste sonho de lobos e leões
e nesta sala,
incapaz da alegria que tenho quando ela chega,
como se a morte entreabrisse em silêncio a porta que tenho nas costas
e espreitasse.
Estou salpicada de culpas, lamas de pântanos e charcos,
marcas de bexigas, embutidos da memória na pele,
pontos de ferrugem que tu me pões no colo ainda branco
e no pescoço
onde as veias alargam e os tendões esticam,
cordas puxadas e repuxadas com muita força por ninguém.
Se nada fiz a não ser ficar presa pelos dias fora,
querendo a toda a gente que me quer,
e mais que todos a um só,
porque me cercam leões e lobos no pequeno dormir que sempre tenho?
Se até o leite já secou há um tempo no peito.
Se já morreu de morte apetecida aquela que devia ser rainha.
Se o rei tem agora netos que são meus filhos.
Sou o coração que bate num corpo por vezes morto,
amolecendo de pasmo nas ausências maiores que os trabalhos e os dias têm sido.
Que há do outro lado de ti, espelho baço,
onde corre o rio que alagava os campos em que me achei,
amor trocado em amor, numa tarde de outras bodas e muito sol,
terra das esperanças dos anos verdes, mal transplantadas
e uma terra para outra terra?
Alarga-se a fresta da porta que me pões à frente do olhar.
Oiço no silêncio um ranger maior,
ferro que se entrechoca com pedra.
É ele que chega com o cheiro que é dele
a campo e a cavalos
a ao chegar prende o olhar em ti, espelho onde me vejo.
O sorriso dele não cabe nunca na largura que tens
e que para mim basta.
Espero, mais quieta não posso, o aperto do abraço feito vida.
Que os estilhaços sejam só teus,
espelho mais frio que a água
onde afundo as feras do meu sonho até as enrolar nos limos pardos.
É ele que avança da porta que se abre,
enche-me então a mim, até que deixo de me ver, e sou eu toda,
eu ou outra,
corpo sempre pequeno para tão grande chegar."

© Eduarda Dionísio

[excerto de Antes que a noite venha, Falas da Castro, Colecção Teatro, Livros Cotovia]

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