Apita o combóio


São as viagens de comboio que me vão elevando o espírito. Ao lado do Tejo, ao longo (para longe) de Lisboa, enquanto a cidade se acende e apaga ondulando entre uma brisa quente elevando-se da água outros silêncios imperam, o barulho do chapinhar nos barcos – que não ouço mas podia ouvir –, o desenho da paisagem por grandes pedaços de terra circulares, verdes e castanhos luxuriantes, combinando frescura e natureza, e depois surge aquela vontade de espraiar o corpo numa espreguiçadeira e de dormir um pedaço. É por volta da hora do almoço que fazer a sesta é dado assente, matéria encorpada de uma letargia demorada, morna, desenvolvido o culto de fechar os olhos, desviado do tempo. Nos lugares mais insólitos, uma cadeira a meio de uma sala, na casa-de-banho, nos comboios que embalam balançando em curtos movimentos ao passar sobre a linha – paragens onde se deveria sair ficam para trás e, ao acordar, pergunto: cheguei realmente onde? Tem sido assim nos últimos dias, apesar do cansaço, ou para além do cansaço. © Ruben P. Ferreira

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