No Dia Mundial do Livro (que foi ontem celebrado)

"Abram as flores. Terminou o tempo. Contem as crianças que ainda não morreram.
Há uma mulher a atravessar a rua. Mandem-na parar. Para casa, se tiver.
Correm os dias que não acabam. As pessoas estão escondidas na tinta dos papéis escritos e pintados. Não têm nome. Ou rosto sequer. Mas pode ser que tenham salvação. Um ida.
O fim demora mais tempo do que pensava. Nunca mais acaba, aliás. a esperança é uma distracção. Não se deixa destruir. Por muito que rezem.
As velhas vivem junto das estátuas dos heróis. Lêem a sina dos mortos, vez após vez, vezes sem fim.
Sem fim não se pode fazer nada. O princípio é demasiado fácil para as coisas vivas. Não se consegue resistir à nascença de nada. Entre as pedras que falam do que ninguém percebe, crescem as ervas daninhas que servem para benzer as árvores que nunca mais se viram, que se cosem nas latas de lubrificantes para fazer sopas verdes e velhas, que são sagradas à falta de melhor, pela morte que não consegue ser completa, nem assim.
O terramoto é mais forte por nãi ter acontecido. As pessoas fazem de conta que sobrevivem nas ruínas. Partilham palavras já sem paciência ou sem dor. Não há notícias. Não resta memória. As frases que ficaram, tiradas de cadernos de crianças que as velhas encontraram nas ruas, são consideradas divinas.
“No Inverno acendem-se lareiras por todo o país.”
“Os meus pais moram no meio da cidade.”
“Era uma vez um pastor muito triste.”"


[excerto de A Vida Inteira, © Miguel Esteves Cardoso, Assírio & Alvim]

"Em Colva tornara-se normal as pessoas não saberem porque faziam certas coisas e deixavam de fazer outras. Mas eu ainda sou do tempo em que não era assim. Foi a modos que de um dia para o outro. Em Colva começaram a passar-se coisas muito estranhas desse dia para o outro. E só eu posso dizer com toda a segurança que dia foi esse, mas isso ia obrigar-me a fazer esforços sobre-humanos de memória, e em Colva faz muito calor. Há acontecimentos que não precisam de datas correctas, a menos que venham mais tarde a tornar-se tão importantes que justifiquem a aplicação de um feriado. Para já, não é o caso.
Quando Santana Borges
(Bórgis)
resolveu também ele desistir de se lembrar porque não fora a Vasco levar o casal de ingleses, adormeceu profundamente no banco de trás do seu Tata branco. Tinha as pernas estendidas e os pés dependurados para fora da janela. Um porco roubou-lhe os chinelas, fugiu com eles para o meio das canas e comeu-os. Santana Borges
(Bórgis)
nunca veio a perceber o que aconteceu aos chinelos.
Viktor regressou de Vasco da Gama às cinco e meia. Deixou o casal de ingeleses junto ao velho mercado e sentou-se no restaurante. Mastigou meia dúzia de chili pakoras e bebeu duas garrafas de cerveja Belo. Saíram-lhe quatro rupias nas caricas. Esqueceu-se por completo do casal de ingleses e voltou para Colva.
O casal de ingleses não se lembrou de regressar sozinho.
Ninguém mais se lembrou do casal de ingleses."

[excerto de uma sombra laranja-tigre, © Afonso de Melo, Dom Quixote]

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