Excertos OML - Julho

Em diferido Pedro Bandeira Freiree

O passado mora ao lado

Um livro de memórias que conta muitos episódios de diversão e boémia. Mas, também,
um livro de despedida a um tempo que passou. Entre o riso e a noite das memórias,
um livro sobre uma vida que dava um filme.

Texto de João Morales Fotos Artur

Chama-se “Entrefitas e Entretelas” (editado pela Guerra & Paz). É um livro de memórias, cada texto começa com um extracto de um diálogo de um filme, cada texto é titulado com o nome desse filme, alinhados por ordem alfabética. Começamos a ler e não paramos. Depois, percebemos que não podia ser de outra forma. São muitas as histórias rocambolescas, mas também as confissões, as recordações, as paixões assolapadas. Dado que estamos a falar de um cinéfilo, poder-se-á dizer que Pedro Bandeira Freire não se esquiva a mostrar-nos o filme da sua vida.
«Eu devo dizer que não era capaz, nunca, de fazer uma autobiografia, no sentido de “nasci em Lisboa, em tal data”, por aí fora, etc. As pessoas dizem, não sei se é verdade ou mentira, que eu tenho uma certa facilidade em contar histórias, aliás, a minha escrita, nestes termos, é muito coloquial. As pessoas quando estão a ler sentem que aquilo é como se eu estivesse a contar mais ou menos a história. Ao fazer aquilo que sei, que é, de certa maneira, contar histórias, essas histórias revelam-me, abrem-me perante as pessoas e isso para mim tem uma certa... não digo importân-cia... é uma maneira de escrever essa autobiografia que eu não era capaz de fazer», explica-nos.
O livro está repleto de momentos de boa disposição, como a história alucinante de um amigo de Pedro Bandeira Freire, Mário Ramiro, que pede um bife no Monte Carlo, surripia-o nas costas do empregado, faz crer a todos que o prato assim vinha, trazem-lhe um novo bife, junta os dois pedaços de carne em frente do gerente e exclama: “é que eu gosto deles altinhos!”. Dias loucos, é bom de ver. «Nós fazíamos desde miúdos, tínhamos grandes histórias, histórias que estão aí contadas, estão contadas no livro algumas. Fazíamos partidas, brincadeiras... eu hoje vejo pelas dificuldades que a malta nova tem, nós tivemos, apesar de tudo, uma adolescência e uma pós-
-adolescência privilegiada, até pela condição, como é que hei-de dizer, de classe média que tínhamos», recorda Bandeira Freire.
Entre as histórias que ficaram por incluir («a verdade é que, e eu tenho dito isto, eu escrevi o dobro das histórias que estão aqui», confessa) um episódio com o conhecido actor Raul Solnado: «o Solnado inscreveu-se, no Rali TAP, nesse tempo. Inscreveu-se, os ralis têm pendura… e ele foi de táxi. Isto é uma coisa lindíssima. Hoje não estou a ver alguém a fazer isto, não. Porque há logo uns controles e umas coisas e tudo mais. Ele inscreveu-se, ninguém sabia, “ah, que carro é que traz? Traz um Mercedes, muito bem”. E ele então aparece num Mercedes com um chauffeur e tal… e o Raul Solnado em pendura».
Mas não se pense que o livro é só rir. Não, há alguma melancolia que Pedro não consegue – nem
pretende – esconder. Há textos mais intimistas, há palavras que cavam mais fundo, há recordações que lutaram pelo seu lugar no coração. «Há duas coisas fundamentais, na minha opinião, as mais importantes na vida: as paixões – no sentido das mulheres por quem eu estive apaixonado – e os amigos. E eu fico na dúvida quais é que são mais importantes... importante, tem que ser o conjunto das duas coisas. Em termos de paixões, as paixões esgotam-se… infelizmente.
É como o amor por outras coisas, eu fui, não sei quantas vezes, 50, 60 vezes, a Paris – não estou a brincar – ver filmes, 50, 60 vezes, e um dia fui a Nova Iorque, e o amor que eu tinha por Paris, olha... troquei-o e fiquei apaixonado por Nova Iorque. E ainda hoje mantenho esse amor».
[Ruben P. Ferreira]

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