Morte tediosa

A morte é tediosa, pois aniquila. A Bíblia tê-lo-á referido, os mortos como nada físico e espiritual, apenas vácuo. Não entendem nada nem ninguém, pois nada são.
Vivos os homens são água liberta escorrendo para além da bondade e da maldade, recuando, divergindo nos intervalos. O fim é uma data adiada, em consciência um corpo não tem prazo, a lavagem de olhos é constante e libertadora, abre as possibilidades. O indivisível corpo queda-se cada dia, embora seja um limite invisível, outorgado à delapidação da memória.
Quando a morte acontece com os outros, é-se aliviado de uma espécie de perda, por momentos aliviados de nós próprios. Quando esses outros (nós) perdem e morre-se, são ambos a livrar-se dessa possibilidade, pois esta é efectiva, e afectiva.
Encontrar na penumbra, quando a noite e o silêncio se escancaram na porta da frente da casa, e nas suas divisões encerradas, a reconciliação com o passado perdido é um mito. Quando o presente foge, e ao fugir admite-se a intromissão de um futuro qualquer apresentado, porque se deseja que seja futuro, embora ainda seja presente, agora, quando a dor é um lugar de desencontro com a continuidade dos dias de outrora, quando evadidos e evacuados no tempo, numa eternidade dissimulada, numa realidade povoada de apóstrofos, de afirmações identificando alvos, enquanto a vida, a película impressa, envelhece, contaminada de grãos pretos e brancos, acontece o milagre da observação do quotidiano, de preenchimento irregular.
Candura terna é poder ficar calado, quieto, conhecendo o tempo a passar.
O único limite da vida é dissimular a morte embora espectadores do derrear de uma imagem que acaba.


© Ruben P. Ferreira

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