Pele de madeira

Correu a pele toda, apalpando o corpo e percebendo ao correr que as coisas tinham mudado. Os ouvidos turvos denunciavam silêncio. A porta sem torso fora fechada, os dois lados pintados com desenhos riscados desenvolvidos numa profusão insana, apagados. O corpo tinha derrubado a porta para poder espreitar o outro lado da sala, lugar onde dois espelhos longos de madeira estavam arrumados, cada um encostado a duas paredes, opondo-se. Toda a sala vazia, absorvida num vácuo pronto a ser despertado pela abertura de janelas, vidros estilhaçados por dentro e para fora do edifício estreito, no centro da cidade, Lisboa, a luz entrando.

© Ruben P. Ferreira

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