Uma nova Lisboa

A cidade de que gosto é um lugar de permanência, o que contraria a ideia de que as pessoas devem viver fora de Lisboa e a esta regressar todos os dias. A cidade é um pólo gerador de conhecimento e cultura, mas não serve apenas para o horário de expediente.
Gosto de pensar na cidade depois das seis da tarde, aos fins-de-semana, pessoas emergindo de todos os lugares e um tecido urbano complexo, uma morfologia contemplando a possibilidade de viver uma multiplicidade de lugares ao mesmo tempo.
A cidade que agora observo está desmembrada. Funciona mal. O rio é um espaço longínquo, distante, inutilizado.
Uma cidade que relaciona diversos agentes culturais, que ‘explicita diversos relacionamentos sociais, que contém ambientes construídos de diferentes culturas e diferentes modos de produção’. (pag. 113, Theorizing a new agenda for architecture, An Anthology of Architectural Theory 1965-1995), é uma cidade articulada, contemporânea. É necessário preparar Lisboa para esse crescimento. Essa alteração passa não só pela recuperação de imóveis devolutos, mas também pela recuperação da relação do morador de Lisboa com o rio. Isto é, o rio tem de voltar a ser espaço de trabalho, de lazer, moradia e passagem.
Colocar o rio no quotidiano dos habitantes de Lisboa é um esforço de relacionamento entre a forma e a função. Robert Venturi escreveu: “A complexidade em arquitectura deve ser constante, correspondendo à forma e à função.”
A propósito da frase “Less is more”, Paul Rudolph escreveu o seguinte: “Alguns problemas podem ser resolvidos. De facto, a resolução de certos problemas é uma característica do século vinte, e os arquitectos são altamente selectivos ao determinarem que problemas querem resolver’. Mies (Van der Row), por exemplo, faz edifícios maravilhosos porque ignora muitos detalhes do próprio edifício. Se resolvesse todos os problemas, os seus edifícios seriam menos poderosos e determinantes.”
A articulação de diversos temas e de uma solução para o todo envolve encontrar um fio condutor, uma génese de intervenção que recupere a cidade da letargia em que foi encerrada. Uma visão integrada de Lisboa para o século XXI terá de contemplar o Rio como espaço de evolução da cidade, que se constitui principalmente como valioso elemento natural para a manutenção da biodiversidade no seu Estuário e na Área Metropolitana a que pertence.


© Ruben P. Ferreira

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