1944-2007



Depois de saber da morte de Eduardo Prado Coelho, fiz um esforço para tentar recordar algum texto, uma ideia das suas crónicas no jornal Público. Só me lembro de algures na semana passada (ou na outra), não recordo bem, ele ter escrito que o peixe cozido representa o 'grau zero de qualquer refeição'. Concordei, e achei engraçado que tenha usado uma imagem tão banal da maior parte das infâncias para dizer o essencial: qualquer refeição é uma festa que deveria ser cuidada a preceito e o peixe cozido nem bem faz aos doentinhos, tal a inocuidade no palato. EPC escreveu sempre o que lhe apeteceu, sobre quem lhe apeteceu e como lhe apeteceu. Foi por isso que O Independente se meteu tantas vezes com ele. No Caderno 3 dedicavam-lhe sempre uma ou duas linhas, um comentário jocoso, uma farpa, uma crítica menos tolerante a um livro seu. Era um ver se te avias a apontar o dedo e ele a reagir, como deve reagir quem é picado. É curioso que mesmo depois de se discordar de alguém, de se ficar indignado por esta pessoa escrever daquela maneira sobre certa gente (amiga ou nem por isso), a morte vem e apazigua todas as discórdias. A morte que é uma gaita, porque apanha as pessoas desprevenidas, traz consigo um consenso, uma palmadinha nas costas de quem fica. Ninguém lhe consegue ficar indiferente, a comoção está logo à esquina a espreitar, a dizer de sua justiça. Como EPC, que tinha ainda muito para dizer, e precisava de lucidez nas mãos para o dizer. Para se zangar e embater contra, por exemplo, o Primeiro-Ministro, a quem também dedicou uma crónica recentemente. É triste alguém morrer tão novo. Devíamos todos durar centenas de milhares de anos, e mesmo esses não chegariam. Num país de analfabetos, EPC morre, os jornais de referência e os outros puxam o tema para capa e ninguém que se preze fará uma edição especial, um número especial, uma revista especial. Ou se calhar farão, vamos ver. Se existisse O Independente, a próxima revista ser-lhe-ia dedicada. De um modo divertido, claro, porque para mórbida já basta a morte,e convém dizer ao povo quem se fina, de um modo que o povo goste e entenda. Num país de analfabetos, poucos serão os que se irão aperceber da importância do facto. É pena, porque uma sociedade que não preza as suas ideias e os homens que as manipulam e usam diariamente, os cultos, é uma sociedade ignorante, esquizóide, doente, próxima do grau zero de educação e de cultura. Como o peixe cozido. [Ruben P. Ferreira]
p.s.: a fotografia é do site da revista Visão on-line, desconheço o seu autor

1 comentários:

LEÃO DA ESTRELA disse...

Quando se diz que o Sporting é um clube das elites, isso também tem muito a ver com o facto de ter adeptos e simpatizantes intelectuais como EPC, sem pejo de assumir que gostam de futebol e que têm um clube. EPC, que cultivava uma atitude aristocrática, não tinha preconceitos pseudo-intelectuais. Era capaz de escrever sobre o “nosso” Sporting e, mesmo assim, ser lido por quem detesta futebol. Porque quando escrevia sobre futebol abordava o fenómeno como uma pessoa normal. Com coração, cabeça e estômago. Também por isso, sendo um homem assumidamente de esquerda, chegando, às vezes, a escrever como se de um “spin doctor” do PS se tratasse, era lido e respeitado em todos os quadrantes políticos. Porque era livre nas suas escolhas, nos seus elogios e nas suas críticas. Desde a fundação do jornal “Público”, em 1990, EPC escrevia diariamente sobre as grandezas e as misérias da cultura, da política e da sociedade portuguesas, a partir dos episódios do quotidiano. Tinha amigos de estimação. E inimigos também. Como qualquer ser humano marcante.

 

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