No meu Portugal

No Portugal cá de casa as coisas são como são e as pessoas boas são mesmo muitas. É por cá que ainda se bebe o quarto de Vigor, tão bem publicitado no site da Monocle (http://www.monoclemagazine.com/), uma revista inglesa com capítulos repletos de sugestões para nos ajudar a conhecer melhor as belezas raras do mundo inteiro, sejam de comer, beber ou, simplesmente, de visitar.
É que Portugal preserva ainda com alguma facilidade certas tradições e gostos antigos, certos privilégios como o quarto de Vigor fresquinho bebido quando a sede aperta. Não é preciso que uma revista inglesa nos diga que o leite fresco em garrafinhas de vidro é bom, nós sabemos o que faz bem à vista e ao estômago.
Como sabemos onde comer, beber e dormir melhor, tendo muito sítio para deitar o corpo e fazer divagar a vontade de nos tornarmos artistas da sesta. Pode ser uma tradição espanhola, é verdade, só que os espanhóis já se destituíram desse prazer que interrompia a sua génese (laboral) com uma imprecação e desinteressaram-se – mais um privilégio para os portugueses recuperarem. Cabe-nos a nós fazer progredir a tradição, pois agora é uma raridade, uma excepção, e sabemos todos como gostamos de ser a excepção à regra. Nisso somos exímios, quer para o bem, quer para o mal.
Este é o país dos dorminhocos, de quem se deita às tantas da madrugada para estar com os amigos, oferecendo no dia seguinte uma desculpa esfarrapada ao chefe para justificar o atraso. Ele entende perfeitamente, porque faz exactamente o mesmo. Por cá ninguém cumpre escrupulosamente o horário de trabalho, e quem o faz é olhado de vesga pelos comparsas de lide. Há coisas mais importantes na vida do que chegar sempre a horas ao emprego. Aliás, essa ideia estapafúrdia de que apenas quem está no local de trabalho é trabalhador, remete para a Idade Média e para a Inquisição, para a confirmação matreira da origem dos gestos dos outros. É uma parvoíce. Também posso trabalhar sentado, deitado, espreguiçado sob a ombreira de uma janela bem iluminada, deitado numa poltrona, a ler um livro e a magicar ideias, a tomar notas e apontamentos em cadernos pequenos e grandes, a reler livros e a pegar em outros que por acaso estão mais à mão, tentando compreender-me escrupulosamente e aos outros. A afinar a alma.
Valha-nos Deus com tanta vontade e necessidade de confirmar o ponto, de obliterar o dia, de ser progressivo e produtivo, de fazer mais que os outros, de ser como os outros. Há tanta vida para viver e tanta coisa para conhecer. Os portugueses não querem fazer mais que os outros e isso não é necessariamente mau. Basta-lhes fazer a sua parte, e pensar em todas as possibilidades oferecidas pela vontade de fazer o estritamente necessário para os outros e muito para si próprio. São muitas.
Portugal é nação que vê nascer artistas por todo o lado, e não é por acaso que os portugueses são quase todos poetas em potencial, capazes de enveredar pela carreira artística ao mínimo descuido. Há na alma lusa uma tendência sublime para a nostalgia e para o sofrimento profissional, mesmo quando o Sol aparece com frequência nos Invernos escuros ou quando os períodos frios não pedem tanto agasalho como isso. Aqui a tarde nunca acaba antes das seis da tarde, até nos meses de dias mais curtos. A vontade de beber tequillas e dry martinis é portanto proporcional à quantidade de horas de trabalho que ficam por fazer, ou que se deixam para fazer mais tarde e no dia seguinte. Podendo ser muitas, contribuem para a cultura de uma pessoa, ou de muitas, depende de quem se dispõe a enveredar por caminhos menos tortuosos.
É observar o mar com fartura, ouvir a água a delapidar as rochas, subir montanhas e procurar bons restaurantes, comer genuinamente bem, e vem tudo ao de cima – a inspiração de querer fazer o que apetece. Isso é muito bom para uma alma. Dá ares de superioridade se comparada com outras almas armadas em boas por fazerem sempre tudo muito bem segundo um parâmetro, uma consistência e consciência de carácter, uma disposição assertiva. Como os ingleses.
Os ingleses têm um clima de fazer pele de galinha a qualquer pessoa capaz de desfilar em pêlo ao longo das neves siberianas, têm bons autores e poetas – tão bons quanto os portugueses (Fernando Pessoa, o Aquilino Ribeiro, o Lobo Antunes, o Nuno Júdice, o Miguel Esteves Cardoso, a Luísa Costa Gomes, o Vergílio Ferreira, a Sophia de Mello Breyner, e tantos outros), mas nem todos têm vocação para a arte. Têm mais vocação para o desempenho. Por cá essa vontade, esse gosto por ser diferente de todos os outros, faz marinar na cozinha, ou na sala, no quarto, por todo o lado, uma atitude diferente, menos austera, provavelmente mais simples, só que a vontade de ficar por cá a preencher com letras e palavras mais cadernos do que os outros já tem barbas. É culpa de alguma inveja entre escritores, potenciais prosadores, actores e cursores de tertúlias e meios literários, artísticos vários. É sinal de sabedoria, de zangas e sinceridades, revelando à descarada a massa de que o corpo e espírito são feitos.
Mesmo o senhor Amílcar da mercearia que apenas lê o jornal desportivo de uma ponta à outra exala uma sabedoria e uma bondade difíceis de contornar. Isso percebe-se quando lá vamos às compras e vasculhamos os cestos de fruta fresca expostos na rua com as suas cores brilhantes que abarcam uma paleta inteira. Quando vamos almoçar à tasca do costume e nem precisamos pedir porque o senhor Zé sabe o que gostamos de comer ou quando somos atendidos candidamente pela simpática farmacêutica de há vinte anos que nos olha com ar de mãe por nos atender desde a infância. Os ingleses e os americanos podem ser mais cultos, da cultura de saber viver o português sabe-a toda. Sobretudo, se comparada com a sabedoria francesa, igualmente culta mas de uma extrema pobreza quanto à tolerância. Todos são extraordinários à sua maneira, é certo, e há muito pensador que dali emana imaginando um ideário de referência que dá vontade de conferir, comentar e reler. Essa possibilidade diferencia-os, e isso é bom, porque assim não somos todos iguais, nem queremos todos comer a mesma comida, ver a mesma televisão (?), ler os mesmos livros. Embora fosse bom que os portugueses lessem mais. Faz-nos falta. Felizmente, o português acredita, tem fé na bondade dos outros e às vezes deixa-se enganar pelos amigos e pelos estrangeiros. Zanga-se, arma-se ao pingarelho e cumpre o que tem de fazer, foge quando o querem prender injustamente e volta quando o assunto se resolve. Ou dá um par de bofetadas aos amigos porque estes, bêbados, insultaram a mulher e os filhos. Infelizmente, às vezes chega a casa e bate na mulher e nos filhos. Quando bebe demais, quando a equipa de futebol perde, quando se chateia no trabalho. Os povos convergem nas mesmas atitudes perante situações idênticas.
Muita gente desgosta de conseguir fazer a arte, mas o português tenta e não se aborrece se falhar o empreendimento. Por isso apresenta o que alcança como uma grande consecução, mesmo se o resultado for um desastre. Tentar é bom, pensa, por pressupor uma vontade enorme seguida da humildade de se ser capaz de dar a volta ao quotidiano com o pouco que dali resulta, por evidenciar a consciência de que podemos fazer tanto quanto os outros fazem e de mesmo assim se tentar fechar o círculo, por se ter a certeza de haver espaço para todos: bons, menos bons, fracos e miseráveis. A escala de valor é a coisa menos importante, importa é querer fazer e consegui-lo.
Pode haver maior liberdade criativa do que esta? É isto que permite ao vizinho de baixo entoar uma cantilena estranha que mais de perto percebe-se ser afinal uma música antiga do Rui Veloso – que é um grande músico e sempre fez grandes canções –, interrompendo o silêncio duma tarde tranquila de domingo com uns acordes numa guitarra bastante mal amanhados. Logo a seguir uma pessoa interessa-se, ouve um bocado do concerto improvisado e remete-se para os seus próprios pensamentos, a tentar averiguar a origem de tanta ousadia, e aquilo dá vontade de oferecer-lhe a letra e deixá-la anonimamente na caixa do correio, para ele, na próxima vez, conseguir afinar com o diapasão os acordes e a voz como nunca antes, pois assim ganhamos todos: artista e plateia (na qualidade do aparelho auditivo). Há nisto uma bondade impossível de encontrar em outras paragens.
Em mais nenhum país do mundo a água do Luso é tão boa e barata e vendida por todo o lado, e a água do Fastio, que é menos doce, também. Passam por aqui águas que em mais nenhum país circulam. E se a água nem sempre se vê passar desde a nascente, embora hajam muitas, no Gerês, onde a paisagem está à vista de todos, os caminhos e carreiros são para ser visitados quanto mais depressa melhor.
O norte, que é tão bonito, e verde, com os seus montes redondos e encostas recortadas de vinhas, as suas adegas, os seus néctares tintos e brancos, o Douro a circular por margens construídas ao longo dos séculos, tem uma cidade mais escura que Lisboa, mas belíssima, o Porto. Com o jardim de Serralves, o museu do Siza, as exposições que não acontecem em mais lado nenhum, aqueles jardins reconstruídos onde dá vontade de rebolar, e a melancolia que dali emana, a nostalgia, e a fome que aquilo dá, andar por lá, pode ser logo resolvida com uma francesinha no Capa Negra (ou na Maia, num lugar que não identifico, fica em segredo), um croissant quente espalmado na Foz ou no Majestic, que como alguns cafés de Lisboa (a Brasileira, a Suiça, a Benard), serve como se o Universo amanhã pudesse fechar-lhe as portas, e desse modo cabe aos empregados impecavelmente aprumados mimar o cliente, com a devida ressalva, postura e distância.
Quando se ouve alguém dizer que o norte é melhor do que Lisboa, uma pessoa até pode anuir e acenar que sim com a cabeça para não dispor mal o espírito de quem diz tal barbaridade, porque é difícil não concordar que o norte é muito bom, só que Lisboa, o Alentejo e o Algarve também são terras de gente muito capaz, simpática e bonita. De boa comida e de arte sem comparação, como em Lisboa, onde agora temos a colecção Berardo (e, infelizmente, pouco mais do que algumas galerias). São lugares e paisagens de uma beleza tão única como a nortenha – a paisagem da cidade incluída –, como todas aquelas zonas verdejantes a fechar o Estuário do Tejo, a começar no Mar da Palha, passando por Benavente, até Alcochete e por aí abaixo. É obrigatório passar pelas paisagens horizontais alentejanas de Outubro até Maio, quando a verdura abunda entre os sobreiros, ou no Verão, quando calor seco delineia desenhos de pedaços entrecortados de terra castanha clara e escura que cortam o coração de tão arrebatadores, pois a par de tanta água do Alqueva que agora por lá vagueia, vale tanto a ida como o tempo que demora a descobrir onde comer as verdadeiras migas com a carne bem frita e tratadinha dos porcos pretos e a açorda com o sabor dos coentros a entrar-nos adentro, quando longe dali vem o sabor e a memória à boca. Paisagem de vinhos generosos e comidinha daquela que a nossa avó faz ou fazia, e que deixa saudades. O norte é assim? Pode ser. Depende das memórias e de quem as descreve. O centro e o sul idem.
É pena por isso, porque nem sempre tudo perdura como gostaríamos. Dá vontade de chorar quando se vê tanta gente tratar do património e da paisagem com ar de quem sabe do assunto, e percebe-se que muitas dessas pessoas, não sendo todas más, podiam estar a fazer outras coisas, não vinha mal ao mundo por exemplo, se estivessem a plantar leguminosas, milho transgénico e outro tipo de verduras. Isso. Talvez até viesse bem a Portugal se plantassem flores e pastassem gado. Era bom poder contar com essa vontade dos outros de fazer sempre o bem em vez de transformar o território numa massa de betão contínua e desnecessária.
Quando o tema é a paisagem era bom que os montes e os jardins e as delicadas flores e quintas para onde é bom passear e fugir se mantivessem como estão, intocáveis, só que há cada vez mais pessoas a querer mais do mesmo, e a procurar o melhor para si e para os seus, e acabam por ocupar mais espaço, e tempo, e tudo o que anteriormente era bom, passa a sofrível, o delicodoce passa a amargo, ou a travo de menor doçura, e é pena as pessoas espalharem-se tão pouco.
Vão-se mantendo as horas, a água do Luso, o quarto de Vigor, a hospitalidade, a água do Fastio e a serra do Gerês, o hotel do Buçaco e os croissants do Majestic, os bitoques de Lisboa e as alheiras de Mirandela, a posta Mirandesa, as açordas de todo o país, os vinhos de Norte a Sul, o bacalhau de todas as maneiras e feitios e as praias que no Algarve estão cada vez mais repletas. Resta, por isso, a costa alentejana, onde, por momentos, se pode ouvir falar espanhol de pessoas que vêm de longe para ouvir o silêncio e provar outra iguaria tipicamente lusa, a extensão de mar da costa portuguesa e tudo o que dela provém: os robalinhos, as percas, as douradas, os polvos, o berbigão, a lagosta, o caranguejo, a flor-de-sal (uma sofisticação). É a Ibéria que Saramago tanto apregoa, não precisa do papel escrito para se empalidecer como ousadia literária, faz-se escorreita nas coisas humanas da vida. Aquelas que interessam de verdade e que estão além de todas as fronteiras e iridições.

© Ruben P. Ferreira

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