Corpo frio



Jacques Derrida foi um filósofo que entendeu a lealdade como um bem. Antes de morrer fez um favor a um professor amigo que se tinha envolvido sexualmente com uma aluna, e defendeu-o com unhas e dentes perante a Administração da Universidade onde ambos leccionavam (UCL Califórnia, Irvine).
Derrida estava em casa, doente, com um cancro no pâncreas, quando o suposto amigo lhe pediu para escrever uma carta em sua defesa. A razão era simples: não conseguiu manter a braguilha fechada e aproveitou a oportunidade de ser mentor pedagógico de uma aluna para ter sexo com ela.
Resumidamente, o teor da carta implicava a obra de Derrida no problema do amigo: ou vocês o perdoam ou, depois de morto, asseguro-me de não vos deixar usar o meu arquivo pessoal. Ele estava prestes a jazer e uma boa parte dos seus escritos e material de pesquisa estavam, ainda, em sua casa.
Derrida sabia o que fazia. O amigo, pelo contrário, não. Jacques estava a ser leal e alguém aproveitou-se disso. Depois da sua morte em 2004, a universidade processou a viúva e os filhos do filósofo, pois queriam o património literário de volta. Ms. Derrida nunca devolveu nada e o caso acabou recentemente com um acordo e as custas do processo pagas pela UCL (cerca de €16,000). É que Derrida não enriqueceu com as suas ideias.
Quando lhe perguntaram numa conferência se se revia como pensador e escritor, Derrida respondeu que se pensava como Derrida. Ao analisar a razão daquela conferência acontecer, afirmou ser por causa da disseminação. “Aprendi muitos com os livros. Mas porque razão vim sem nenhuma preparação, com anotações falsas (levanta um bloco de papel em branco para a assistência)? Quis vir para cá o mais nu que consegui (despe o casaco). Nudez: pureza e pornografia. Quando se vem a uma conferência denominada ‘Applied You’, é como se se estivesse morto. Quis perceber como seria quando morresse. Foi por isso que vim.”
A consumação da morte expõe a fragilidade pueril do corpo, que subsiste enquanto há vida, sendo a nudez a sua melhor expressão. Tudo é curto, o dia, a noite, as relações, os beijos, as conversas. A nudez permanece. [Ruben P. Ferreira] (versão completa do episódio de Derrida, aqui)


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