O pó da solidão


O filho de Pedro Páramo (Pedro Páramo, Cavalo de Ferro) passeia por paisagens mexicanas, entra e sai de aldeias e casas, onde também dorme. Chega a Comala (México) e entra numa casa onde reencontra pessoas que lhe dizem o significado que a vida pode ter. Desconhecidos cuja imaginação permite uma extrapolação de relações com outro universo de pessoas que o querem auxiliar na busca tardia pela esperança. Busca que terá tido início depois da morte da mãe, que também o acompanha, como memória residual que influencia os seus movimentos enquanto tenta encontrar o pai. Acaba por encontrar um irmão, uma amiga da mãe, que morreu, desdobra-se em espaços que são uma enunciação consagrada à sua inscrição no espaço-tempo da sua, e da memória dos outros. Dorme o sono dos justos, sofre com o calor e a humidade. Fica deitado e levanta-se para sair porta fora, passando por onde pessoas já estão à sua espera, a descobrir uma lógica na adequação desses encontros. Como se aquele percurso estivesse há muito traçado para ser caminhado e resolvido. Um dia, acorda com uma mulher com ‘corpo de terra’ ao seu lado, que mais tarde se despedaçou na lama. “O calor acordou-me por volta da meia-noite. E o suor. O corpo daquela mulher feito de terra, envolto em crostas de terra, desfazia-se como se estivesse a derreter-se num charco de lodo. Eu sentia-me a nadar entre o suor que jorrava dela e faltou-me o ar necessário para respirar. Então levantei-me. A mulher dormia. Da sua boca borbotava um ruído de borbulhas muito parecido com o estertor.” Compreende-se que a dimensão perceptível da sua lucidez é um pouco mais sublime, corporizada em significados que nunca pensou desvendar. O seu caminho fragmenta-se em delírios mágicos reproduzindo cenários irreversíveis, de conflito entre o passado e o presente. Facto é que Juan Rulfo foi um dos autores mexicanos consagrados e um mestre do realismo mágico do século XX. As suas personagens tanto morrem como estão vivas no parágrafo a seguir. Escreveu, sobretudo, sobre paisagens e pessoas suas conterrâneas. O que importava ao autor era a consecutiva, lúcida, interpretação do processo evolutivo de cada personagem (pessoa), ao mover-se no seu território, de acordo com uma génese bastante pueril: a bondade, o carinho para com os outros, e o oposto. Alguma destreza na composição de interstícios rudes, ásperos, como a paisagem seca votada à ventania e secura, delimitam enunciados trágico-cómicos poderosos. Rulfo constrói um mundo de conto de fadas, tomando liberdades narrativas que conferem aos seus romances uma amplitude onírica. Se nem tudo o que parece é, então, cada homem e mulher luta pela sua sobrevivência, recorda e dá a recordar. Comete pecadilhos e expia-se nas suas próprias palavras, no conforto do lar e na perdição azul dos céus. Pela ideia de revelação e compreensão. A carga poética (prosa) é fortíssima, o que é comum em outros escritores sul-americanos. Veja-se um exemplo: “Encontrarás lá o meu querer. O lugar que eu amei. Onde os sonhos enfraqueceram. A minha aldeia, erguida sobre a planície. Cheia de árvores e de folhas, como um mealheiro onde guardámos as nossas recordações. Sentirás que, lá, uma pessoa gostaria de viver para sempre. O amanhecer; a manhã, o meio-dia e a noite, sempre os mesmos; mas com a diferença do ar. Lá, onde o ar muda a cor das coisas; onde a vida corre como se fosse um murmúrio; como se fosse um puro murmúrio da vida…” O romance é uma composição elementar e insólita de espanto com a vida e a morte, com a matriz dos apegos e dos ódios a servir de guia. Elementar para quem considera a escrita como sua parceira nas horas alheias de solidão. [Ruben P. Ferreira]

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