Intermitências do amor


O tema do amor é recorrente mas inspirador. Pela capacidade de certos autores tentarem reescrever a história das relações contemporâneas. De lhes dar um espaço de fundo onde são justificados todos os actos, escolhas, objectivos e sintomas culturais. Alain de Bottom, que também já escreveu sobre arquitectura e sobre os motivos porque esta é necessária à vida, usa o ensaio sobre a temática amorosa, "Ensaios de Amor" (Dom Quixote) para inteirar o leitor das fragilidades das relações, e da felicidade que é podermo-nos apaixonar uns pelos outros. A pretensão pode até ser mais ténue: revelar factos e acontecimentos comuns a muitas relações amorosas, contextualizá-los no fragor amoroso, de um modo desapaixonado e racional, proporcionando ao leitor uma viagem apetecível pelos meandros intelectuais e filosóficos que podem servir de justificação a alguma atitude, pensamento ou decisão de cada "eu". De facto, o liberalismo amoroso e libertário de Botton tece-se num encadeamento de manobras, gestos e provocações comuns a certas relações, quer dentro, quer fora do casamento (como a descrita). Embora, por vezes, as pessoas se afastem, ninguém gosta de ser posto de parte, de ser parcela da equação foste-embora-com-o-meu-melhor-amigo, de ser bobo da corte e de apareceber-se ter sido trocado por outra pessoa. Quando o narrador tenta esmiuçar os sentimentos aplicados aos sintomas de ver alguém que lhe interessa, de o (a) conhecer melhor, de manter, de terminar um relacionamento, fá-lo do ponto de vista de quem se dispõe abrir as portas do coração, fechá-lo e abri-lo novamente. Do ponto de vista de quem está pronto para uma batalha. O estudo da relação do narrador com Chloe, faz-se desde o momento em que aquele a encontra, num vôo da British de Paris para Londres, e se apaixona, até ao desenlace, quando ela descobre no seu amigo e colega Will virtudes que deixou de lhe observar, por se ter cansado, farto, ou porque o desamor a um foi superado pelo amor a outro. Momento em que o narrador pensa no suicídio. Depois de algumas considerações sobre os efeitos da dor-de-corno, acaba por concluir: "Se eu me tivesse suicidado, isso teria significado que não me ocorrera que, depois de morto, me seria impossível extrair qualquer prazer do melodrama da minha própria existência." Elementar e divertido. Porventura, o amor é constemente testado nos seus laços mais ténues, nas suas fragilidades intrínsecas, nos louvores poéticos que a paixão produz, nas suas tensões, quando a qualidade do laço é testada. O corpo e o espírito são consumidos por esta vontade de aplacar o coração, de o domar e gerir nas esferas simbólicas do espírito e da mente, nos apelos à consciência e desviando-se dos seus súbitos achaques. A linguagem e a sucessão escolhida de capítulos segue a lógica dos acontecimentos inevitáveis, das pressões permanentes, da paz de espírito e do inequívoco calor humano produzido por dois seres humanos que partilham a sua intimidade. Com tranquilidade e fervor. Sente-se, contudo, haver uma negação do casamento como objectivo e opção, por isso ser uma inevitabilidade contemportânea. Perpassa a ideia de que o amor é uma descoberta constante de relações várias (pelo final) e não uma descoberta constante duma relação, o que é pena - a verdade é que o narrador e traído quereria perpetuar a relação, e pelo tom, percebe-se que seria longa, talvez até eterna. A negação desse pensamento (casamento) não desmerece uma tentativa equilibrada de explicar o direito ao amor, os medos a ser ultrapassados, os valores arreigados de quem ama, as ambivalências, transferências e contra-transferências inevitáveis, e o problema da dissolução progressiva. Apesar de o patamar elementar do casamento ser um objectivo igualmente dissolvido, o narrador reconhece na dor sofrida uma perda marcante, e isso contribui para confirmar que o amor não é um capricho, mas um valioso empreedimento romântico que pode fortalecer o coração de duas pessoas. [Ruben P. Ferreira]

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