O Último Coração do Sonho*

Uma cigana corre atrás do filho pelo meio do comboio, com uma voz rouca a fugir para o estridente, quer dizer-lhe alguma coisa, fazer-lhe ouvir o som da sua generosidade, acabar de vez com os passos ímpios e iniciar um diálogo de passadas ténues, longas e lentas. Só que o menino ri e chora ao mesmo tempo. Corre e foge dos seus braços. Outras crianças correm na ausência de uma obrigação de manifestar alegria. Estão contentes, nada mais. Aquele rapaz sem corpo, pois a sua fragilidade aparente ainda faz dele um poderoso sonhador, corre para o lado de lá do comboio com a mãe atrás a aconselhar-lhe calma, Fica tranquilo, diz, e ele ri para poder ir ainda mais para a frente.
Pobre rapaz, ou rico rapaz, rico na sua densidade, no seu provável empenho para fazer da mãe uma mulher feliz, a ousar conciliar uma deslocação nos caminhos já traçados, nas linhas limitadas por terríveis pedras que cerceiam o percurso, que o comprimem. Como as linhas dos comboios pressionadas por todos os lados, à velocidade de uma paisagem numa janela a desaparecer e a enquadrar-se novamente naquele pedaço de serra e campo que desaparece, e a levedar com a alma da criança a rima de palavras e gestos.
O torso do homem torceu-se todo para o ver correr de um lado para o outro, o tempo de passar umas quantas estações, de uma rapariga entrar e sentar-se a ajeitar a melena do cabelo, apercebida dos olhares sobre si. Da mulher que tenta sair e volta atrás pois a porta abriu-se sobre um abismo, um buraco de cimento aos seus pés, e atirou os passos dali para fora, à procura de outra saída, para se embiqueirar com a vida. Do rosto sombrio da adolescente descendo uma rampa na rua, olhar fixo nas flores de uma morte ocorrida, uma morte estúpida de gente mais nova que a própria aurora dos tempos.
O riso, a dor, a alegria, a quietude disfarçada de gesto sublime e de todos os lados um movimento contagiante que troca as voltas à ingenuidade, de quem consegue esbracejar nas ondas eléctricas dos comboios, contente e feliz com a variedade de sons, de conversas e pessoas, pela combinação de poderes que exibem para avançar com os dias para a frente.
O menino brinca com a mãe, apanha os piões e lança-os sobre a terra, a levantar poeira. São os riscos da sua corrida.

© Ruben P. Ferreira

*título de um texto publicado na revista Ler, Primavera de 1994, da autoria de Al Berto, na sua coluna habitual: Inventários

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