Terreno da escrita




Depois da reunião dos livros anteriores de poesia em "Metade da Vida" (Quasi Edições), Francisco José Viegas volta ao registo poemático. Neste caso, numa tonalidade mais intimista e prosaica do que regida pela ortodoxia formal da escrita poética, com um título que nomeia um dos poemas desta série: "Se me comovesse o amor". Pequenas narrativas em forma de poesia, com versos diversos, entrecortados por pausas e quebras, e prosas narrativas mais longas, sobre o mundo, as pessoas e os seus afectos. Pessoas desconhecidas e outras bem conhecidas de quem não é possível uma separação, a cuja memória se recorre, seja pela bondade, pela bonomia, pelo cansaço, alegria e desejo. Realçe para este último tema, pois é muito explorado: o desejo no amor, a sua negação. Faz-se uma longa reflexão sobre os conflitos, as tensões, a dureza das relações, e FJV enquadra-os numa perspectiva da história do seu crescimento e amadurecimento, de como o reconhecimento da solidão, por vezes da saudade, pode também ser um lugar tranquilo para ficar a aguardar novos desígnios, ou nada. O vazio. Esta acção contemplativa é reforçada pelas viagens que certos poemas sugerem, viagens que resultam da experiência pessoal do autor, criando um efeito de singularidade espaço-temporal: Buenos Aires, Paris, Caracas. Veja-se 'O Tango. Buenos Aires': "Brigam no meio da rua. Ao passar em San Telmo,/ao fim da manhã, vejo como brigam, corpo/com corpo, ao som de uma música vingativa/que comove os cegos, os que passam, os que ficam." Alguns momentos de tensão são provocados pela escrita como exegese, pela necessidade de 'conceber uma linha', outro tema aduzido e permanente. O compromisso com o posicionamento das palavras e o seu significado, para que aquela - Literatura - tenha um sentido, mesmo se incógnito e por desvendar. Embora a melancolia seja na maior parte dos poemas o leit motiv, provocada pela solidão, pelo afastamento do objecto amado, por um auto-isolamento imposto e provocado, a esperança e a alegria correm paralelas, repescadas nos lugares importantes (e referenciais), nos pequenos detalhes da Natureza, a vegetação, a paisagem, a geografia: "O crepúsculo" (tema de um poema); a neve de 'Ushuaia'; as águas de 'Lapataia'; 'As Altas Serras: " Sol debruçado sorbe as neblinas,/primeiros vaga-lumes. Barreira contra/a ventania, uma nuvem sobre a outra,/silêncio sobre silêncio, vegetação,/passos no meio da chuva." Os lugares são muito importantes nestas narrativas singulares, pois constituem o território percorrido pelo 'cartógrafo', o seu léxico e a sua base de trabalho (e retoque). FJV serve-se bastante destas referencias, posicionando-se à margem - como quem descreve e observa -, mas sem sair completamente de cena. Ensaia certas divagações e trajectos pelas coisas boas da vida, como o beijo ("O Beijo de Académico em Paris"), introduzindo na sua análise um cosmopolitismo 'contaminado' pela urbanidade, com laivos de humor, contrapondo à vulgaridade de certos actos a exclusvidade de outros. Compromete-se com a ideia de usufruir do prazer da leitura (e da escrita), sem se esquecer do prazer de viver. "Se me comovesse o amor" (Quasi Edições), será lançado na Casa Fernando Pessoa no dia 10 de Janeiro, às 18.30h. [Ruben P. Ferreira]

0 comentários:

 

Quantcast