Alentejo

Regressa devagar à luz da tarde,
ao voo de uma cegonha que se entrega
ao azul. Também tu
quiseste acreditar no coração,
no fogo que alimenta as suas leis,
nessa comédia quase inofensiva
das relações humanas.

Regressa devagar a esta luz
e esquece-te de tudo: das palavras
que alguém te segredou de madrugada;
das notícias que lês no teu jornal,
das cotações, das fotos, das mensagens
que hibernam no telefone desligado.
Esquece acima de tudo
esse disco riscado de mil frases
mil vezes repetidas a que chamam
poesia.

[A Luz da Madrugada, de Fernando Pinto do Amaral, Dom Quixote]
[Ruben P. Ferreira]

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