As cheias



Chove e Lisboa, a Grande Lisboa, fica inundada. O país idem. Construções em leitos de cheia, esgotos entupidos, rios, lagos e lagoas tapados com betão (como a Ribeira de Alcântara), uma boa parte dos sistemas naturais de drenagem e escoamento interrompidos por culpa de um ordenamento do território miserável, aliás, inexistente. O que conta é construir e ocupar qualquer espaço disponível, enfiar gente em apartamentos e casas e ignorar os princípios básicos quer do ordenamento, quer da arquitectura -- e da sua qualidade. O que conta é ter lucro (que começa a escassear) e deixar contruir sem critério. A população aceita o pior como se fosse espectacular. Ninguém quer saber se as pessoas têm ou não qualidade de vida, se os edifícios estão bem localizados relativamente ao curso natural da água e se os sistemas naturais funcionam. Quando chove um pouco mais fica à vista o resultado. Por esta altura, já morreram pessoas, o que nem parece ser suficente para obrigar a uma revisão do paradigma do ordenamento do território português. Outros morreram no passado e continuou-se a fazer o mesmo. Porque nunca ninguém quis (nem quer) ouvir o que Gonçalo Ribeiro Telles (arquitecto paisagista) e outros têm a dizer sobre o assunto. Há uma ignorância latente e generalizada que atravessa todas as classes, . O que ontem se parecia com um programa de televisão de evocação de uma má memória (Depois do Adeus, RTP1, conduzido por Maria Elisa), uma memória pouco digna das cheias que ocorreram em anos anteriores, tornou-se subitamente num momento de actualidade. [Ruben P. Ferreira]

 

Quantcast