Portas automáticas

Inicialmente, pediu-lhe um caderno pautado com uma capa azul. A meio de uma fila, viu-o respigar as narinas e esbracejar com contenção para os outros não verem a sua má-disposição. Viu-o menear a cabeça e alçar a voz rouca num silêncio ruidoso de cuspo atirado para o chão às escondidas, Estás sempre a pedir alguma coisa, já te disse que não te compro o caderno. Por isso, recuou um pouco, com medo da voz grossa de acentuação removida, curta, levedada em recusa, em contas de tostões ganhos com um suor do trabalho duro. Recuou e pousou o caderno com tristeza. Os olhos dele tombaram para a indiferença, e ela, menina, a ver os outros rapazes e raparigas da mesma idade a comprar à vontade no supermercado da região, com as mãos cheias de doces, merendas, gelados e refrigerantes, observava sem inveja, a enunciar o seu dia, o modo como tinha começado, com evidente nostalgia por poder rir com os seus amigos que ali estavam longe demais. O pai a pedir-lhe o pequeno-almoço, a merenda para o lanche, as compras a caminho da escola, tardariam as aulas, depois outras tarefas, o jantar, a ceia, o copo de vinho cujo odor destestava e recusava. Gostava de ir para a cama sonhar com outro dia diferente, e acordava todos os dias na mesma manhã repetida desde que a mãe os abandonara para dentro de uma sepultura. Desconhecia tanta coisa que a mãe sabia, e ficou com um pai nas mãos sem lhe dizerem a razão de tal árdua tarefa. Foi quando a indiferença se transformou em carinho e a humildade em pudor. Outras pessoas na fila viam aquela cena com profundidade e reparo. Te-lo-ia feito a caminhar na direcção do Paraíso. Teria interrompido o trajecto para comprar-lhe o caderno pautado com uma capa azul, um luxo precioso porque a menina gostava de escrever uns textos pequeninos sobre todos os assuntos que não dominava. Às vezes, tinha coragem de lhos ler em voz alta, gostava de o ver sorrir de vez em quando. Coragem que perdera no silêncio emudecido da voz interior do pai, ao ouvir a recusa, quando deixara o caderno escorregar para cima do tapete negro da caixa registadora. O pai viu naquela tristeza uma dor mais infeliz que o seu próprio pesar. Do autismo dominador adequado às circunstâncias incontroláveis, discerniu o amor à filha, devolvendo-lhe por momentos uma infância roubada anos antes. Quando os dias de uma criança acalmada por um colo doce, ainda acabavam com uma luz materna a atenuar a intensidade do seu choro morno.

© Ruben P. Ferreira

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