Rua 25 de Abril

A rua ilumina-se todos os dias à mesma hora. Pode chover, pode fazer um sol timidamente escondido por pedaços muito brancos de flocos de nuvens a contrastar com tonalidades de azul. Até pode fazer uma claridade que descobre as sombras mais tímidas. Quando a rua teima em iluminar-se, a intensidade desse foco é muito maior e densa que em qualquer outro período do dia. A luz percorre toda a extensão da rua, os seus passeios, a sua estrada de alcatrão entrecortada por sarjetas mais elevadas que estragam as suspensões dos automóveis, as portas de entrada nas casas e os seus jardins, os parapeitos das janelas, os próprios vidros. A luz acorda todos os seres, sobretudo gatos bebés enfiados às ninhadas pelas mães gatas em tubos compridos de pvc. Confirma-se como linha invisível que liga as extremidades do infinito.
A menina de quatro anos, tão pequena como as meninas e os meninos de quatro anos, pisa as pedras bem acomodadas do passeio. Desloca-se como um anjo a pairar sobre a extensão da terra. É a sua luz. Tem, como a mãe, o cabelo loiro, cortado certinho pelo pescoço, os braços apertam com força um boneco careca contra o seu peito, para não escorregar e fugir. Veste um casaquinho de cabedal azulado, com capuz de pêlo.
Lá vai ela, atrás da mãezinha que, muito alta, a tem na mira certa do seu amor. Saíram agora de casa, fechando a porta de alumínio da casa de dois pisos com varanda, vizinhos brasileiros que ouvem muita música, vizinhos angolanos que fecham a porta da garagem para acomodar o som do kizomba até altas horas da madrugada. O seu cabelo, da mesma cor do da filha, está fixo com aqueles ganchos que se escondem no meio do cabelo, ficando imperceptíveis. Às vezes, roda a cabeça para trás e olha longamente para o rosto dela, para assegurar-se que a persegue. Gosta de sentir os seus pés a pisar-lhe os calcanhares. Depois continua a dirigir-se para o seu destino, continua a pensar na distância, no tempo que passou desde que abandonaram o mundo dos homens que fica no outro lado do planeta, num lugar longínquo onde a neve esconde os corpos enterrados sobre o pretexto da guerra e do sangue vertido pelos pupilos dos czares.
A ingenuidade dos seus gestos de menina pequenina mostra a quem quer ver um lado mais pacífico da atmosfera. Um lado que, por momentos, corresponde ao elo de ligação entre mãe e filha, a unir corpo e espírito, mente e coração. Um todo constituído de amizade e carinho.
Vem, diz-lhe, vem para perto de mim. Dá-me um beijo. Ela dá, deixando por momentos pender o boneco de fingir que segura de seguida com uma força ainda mais poderosa. Implacável.
Caminham assim, uma atrás da outra, percorrendo diariamente o mesmo pedaço de estrada cuja luz se apaga depois de ambas passarem. A menina observa as pedras do muro de suporte que se elevam a uma enorme altura, balbucia palavras curtas, sons que quer dizer sobre aquela parede, talvez perguntar à mãe se um dia o muro que as separa do passado ruirá. Olha as pedras, a estrada, os candeeiros, as ervas, e pergunta, Mãe, o que é isto?, São as pedras, é a estrada, é um candeeiro, são ervas, querida.
A mãe acelera o passo, não por querer evitar as perguntas. Sabe que as fará, cada dia mais complicadas. Terá de lhe responder. Reconhece que um dia terá de ser um pouco mais precisa e sincera. Embora no passado tivessem carros, casas, viajassem bastante, era um bem-estar demoníaco. Agora podiam deixar crescer entre elas um valor mais poderoso que o dinheiro vivo do pai, de quem fugiram: a verdade nua do amor um pela outra. Mesmo isso implicando acordarem cedo, entrarem todos os dias no mesmíssimo autocarro, deitarem-se tarde. Permanecerem quietas no mesmo sítio durante muitas horas. É um cansaço de felicidade conquistada e isso basta-lhes.
© Ruben P. Ferreira

 

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