Um país à deriva {actualizado}

Portugal é um país adiado. As grandes coisas nunca superam as más. O tempo parece não chegar para fazer tanta coisa que falta e para acabar com tanto lixo que deixa ocultas as coisas boas.
Começa-se com os ‘Morangos com Açúcar’, esse produto televisivo de qualidade duvidosa promovido a ícone cultural – há quem escreva ‘geração morangos’ em jornais de referência, como se isso fosse uma relevância. Não é. Uma geração não pode ter o nome que alguém se lembrou quando teve uma dor de barriga. Isso é verborreia não substantiva. Ouvem-se dois minutos da série, de olhos fechados, e percebe-se quem escreve: sobretudo mulheres que lêem pouco. Ficamos a par dos seus gostos, das imagens que constituem a sua biblioteca mental. Sinceramente, não me lembro de ouvir um rapaz adolescente dizer para outro com voz afectada, em tom Dó bemol (muito acima), quase aos gritos, ‘Ouve lá, se não vieres comigo agora deixo de falar contigo, ouviste’. A cena em causa nem sequer tentava reflectir uma preocupação de manipular o público a favor de um tema como a homossexualidade, e de uma determinada pedagogia que perpassa a acção, e ficção do quarto canal. Era apenas sentimentalismo entre amigos, coisa que na realidade não existe. Existe ali, numa tentativa de inversão de um paradigma, e isso é que é lamentável.
A gravidade da exibição deste tipo de séries é facilmente observável. Basta ir a um hipermercado e estar atento ao discurso dos jovens que passeiam com a família. Basta ir a um café e ouvir os miúdos despidos de uma capacidade real de se inteirarem daquilo que são, de conseguirem fazer uma crítica. A ‘geração rebelde’ – miúdos incapazes mentais – fala agressivamente e em permanente conflito com os outros. Uma canseira. O conflito que a acção promove é infelizmente o conflito que os jovens reproduzem na sua vida (não me lembro onde, mas já li isto em qualquer lado). Com produtos televisivos desta estirpe, o futuro avizinha-se pouco risonho, aliás, tão acutilante como um grito afinadinho de uma boca com parco vocabulário.
Se os miúdos são habituados a exibir um sentimentalismo – não sentimentos – de pacotilha, justificado pelo relativismo social em que andam metidos, e que as séries simulam, como é que se vão confrontar com os seus pares europeus que não andam metidos na mesma lenga-lenga? Solução: o país servir-lhes-á de tapete de salvação quando os pais, os amigos dos pais, os conhecidos, os integrarem num lugar qualquer onde possam ter um emprego, sem mérito. A premiar a mediocridade, a fazê-los acreditar que as coisas são realmente como crêem. Os que não têm amigos continuarão a atender telefonemas em call-centers o resto da vida, ou dependentes do belíssimo recibo verde numa qualquer profissão liberal. A mentira é instituída como uma verdade absoluta e credível.
Uma consequência deste relativismo moral e social são os erros ortográficos presentes quer em jornais, quer nos rodapés dos ecrãs de televisão. A razão?
Os pais demitem-se da educação dos seus filhos, que fica a cargo dos professores, dos amigos das crianças e da televisão propriamente dita. Quando um professor exausto exige do miúdo alguma atenção, ele segue o exemplo caseiro: demite-se da sua obrigação de aluno e faz o que lhe apetece. Desaprende. Ignora os apelos, vai para o café, para o centro comercial, com os amigos, fingir que é crescido. Coisa boa de recriar quando, de facto, a matéria cinzenta é utilizada como arma de arremesso. Como há bem-estar, o dinheiro na carteira (que, de facto, têm), é o seu grande educador, com que podem brincar ‘às casinhas’ e aos adultos com roupa de marca impecavelmente engomada.
Só que os tiques cada vez mais rasteiros, que vão desde a total negação da leitura à proliferação de um léxico promovido como linguística de eleição, tal como dizer ‘tefone’, e achar-se que isso tem graça, foram integrados num espaço denominado de ‘cultural’, hostil a qualquer exibição de conhecimento.
As pessoas crescem num ambiente que contraria a sua evolução como indivíduos, a fingir que a evolução é favorável. Quando este crescimento está assente sobre pressupostos frágeis e desinteressantes, a longo prazo, as consequências serão certamente negativas. Resta perguntar: que adultos estão as escolas a criar?
Bem, estão a criar-se jovens que assumem posições nas empresas, e nos jornais, nas suas profissões, com uma única justificação: ganhar dinheiro, estar com os amigos, vestir bem, ir jantar fora, sair à noite, por ser ‘giro’.
O novo paradigma aparentemente criado abre alas aos erros ortográficos, à falta de cuidado, a uma nova e descuidada falta de exigência. Esta geração chega a lugares e profissões ‘especializada’ mas sem competências culturais, depois de uma passagem na universidade, onde a tolerância dos professores para com o copy-paste foi justificada pela falta de ‘bases’ dos seus alunos, e pela evidente impossibilidade de eles poderem realizar um melhor trabalho. Teria sido uma maçada exigir deles uma prestação que os responsabilizasse, que os fizesse assumir o buraco em que se enfiaram. Quando uma geração inteira se mete num imbróglio destes não se leva sozinha ao fundo. Leva-se, como um todo, até ao mais baixo grau da sua novíssima existência.
Deste modo, passam a ter de aprender ‘com a vida’, como dizem os velhos, à vista de todos, perante uma audiência que os aceita por saber que nada pode ser concretizado para alterar o cenário. Os miúdos cometem os erros e ninguém os responsabiliza porque a responsabilidade bate à porta de quem inventa legislação. Que a tem fechada quando parece prestes a haver incomodidade.
Portugal é o país da falta de responsabilidade civil. Nenhuma instituição pública assume os seus erros, nenhum dirigente é responsabilizado pelos seus actos. Mesmo quando os problemas envolvem violência ou a morte de alguém, as consequências da incúria raramente são proporcionais à dimensão da tragédia. Impera o desrespeito pelas pessoas, cada vez mais desprotegidas. A não ser que o problema seja televisionado e tornado público. Se não foi possível impedir essa exibição – o que, por vezes, acontece –, tenta-se uma solução de emergência. De recurso.
Portugal é o país das soluções de emergência, por nunca ter até agora sido tentada uma coerência legislativa, judicial e social em simultâneo. As instituições aceitam as reclamações sobre as ocorrências, pouco mais.
O povo aceita o gesto, habituado ao desprezo. Preocupa-se com a vidinha. Envolve-se com os bancos e as financeiras, gasta o dinheiro que não tem em automóveis, casas e telemóveis. Por costume, por não saber ou não ter nada melhor para fazer. Por falta de cultura. Poderá argumentar-se, passava-se o mesmo há uma década, quando havia mais dinheiro. Mentira. O povo nunca teve verdadeiramente dinheiro. Outros, talvez.
O povo quer, isso sim, ser deixado em paz, pois sabe que não pode mudar e lutar contra um sistema que o coloca à margem. Junta-se à multidão resignada e aceita que a culpa morre sempre solteira. Mal ou bem, isso trará alguma vantagem. Presta as contas que pode às empresas e instituições que aproveitam os vazios legais e a lentidão da justiça para cobrar juros torpes e vis sobre valores que foram engenhosamente publicitados, em campanhas que custaram milhões, mas que nunca deveriam ter sido adquiridos.
Prolifera, por isso, uma corrupção mesquinha do mais baixo ao mais alto escalão das hierarquias, para compensar os altos e baixos salários. Para salvaguardar o padrão de vida, justificam-se certos comportamentos, com o argumento de ‘os outros fazerem o mesmo’.
Com obrigações financeiras incomportáveis, com uma moeda forte que teima em não chegar para as encomendas, por preços de produtos básicos de consumo, como o pão, e outros, como o café, a meia de leite, o pão-de-leite com manteiga atingindo valores proibitivos, tendo na crise a sua pueril justificação –, o cidadão português aceita a vida que lhe é oferecida e propiciada sem pestanejar. Reclama pouco.
O proletariado caminha de um lado para o outro das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto de transportes públicos e em filas intermináveis de trânsito. Os latifundiários remediados cultivam pequenos espaços de terra e sobrevivem com o dinheiro das reformas, com a compaixão das famílias (se forem mais jovens). Os latifundiários com posses utilizam o seu poder para vincular os seus interesses a expedientes que lhes rendam bom dinheiro. Os poucos que vivem com o fruto real do seu trabalho, porque a cultura do mérito é, ainda, uma ficção, e, portanto, os salários são baixos, não reflectindo as suas qualificações, continuam a acreditar ser possível mudar alguma coisa. Estão enganados.
Os que vivem do dinheiro do seu salário estão a anos-luz daqueles que vivem do seu dinheiro, que pode ser de família ou de rendimentos que provêem de bons empregos. Esses endinheirados, com boas casas e automóveis topo de gama, passam ao lado da crise, porque para eles esta é residual. Aplicam os seus rendimentos para compensar as perdas e conseguem distanciar-se daqueles que têm pouco. A carapuça servirá a muita gente. Por exemplo, aos donos das empresas (dos bancos), mais preocupados com os lucros e as obrigações dos funcionários (veja-se a obsessão com o controlo), e menos com as suas regalias, com a necessidade de os fazerem sentir recompensados.
Os que vivem dos seus parcos salários, fazem-no sem privilégios, benefícios e facilidades. Estão condenados a uma depressão profunda, que se generaliza. O pouco dinheiro que conseguem ganhar impede-os de acederem à cultura. O resto é uma pescadinha de rabo na boca. Fechados em casa, vêem a mesma televisão que os massacra com banalidades, e que faz alarde de não-notícias. A televisão que é idêntica em três postos diferentes, emitindo programas que são cópias de cópias de cópias, realizados por produtoras aceitam trabalhar a preços de custo servindo-se do propósito de encher o ecrã. A ideia do vale tudo assentou segundo uma dicotomia destabilizadora: os técnicos trabalham a qualquer preço, as estrelas das estações auferem ordenados milionários – a mesma fórmula dos administradores de empresas públicas, administradores bancários, etc.
As corporações fazem-se ouvir. Querem mudar o país a favor dos seus interesses e dos interesses dos seus associados. Querem lutar contra a ignomínia do Estado e a sua burocracia. Barafustam sem rigor. Como todos, têm uma agenda para cumprir. Penso que podia construir-se uma biblioteca de agendas públicas e privadas.
As transformações sociais estão à vista de todos. O Estado Social e as suas regalias acabarão por desaparecer. Contudo, não basta pensar que se tem uma obrigação perante os outros europeus porque as tranches (que palavra bonita!) de dinheiro continuam a pingar. Essa obrigação moral de se ser mais capaz, mais culto, também serve dentro de portas. Seria interessante voltar a ter agricultura, escolas técnicas, vínculos de outrora apagados com paixão e carinho.
Como exercício, sugiro a leitura dos jornais do século XIX. Os protagonistas serão outros, a cultura e os factos são os mesmos de agora. Haverá excepções, muito bem ensaiadas e analisadas por Miguel Esteves Cardoso que, a propósito, num dos seus livros, confessa: “Ao contrário do Portuga, que prefere o artigo estrangeiro, por ser mais «fino», o Portuguesinho orgulha-se. Não abre um livro do Pessoa, ou uma garrafa de bagaceira antiga, sem dizer «Olhe – isto é que não há na CEE!» (A Causa das Coisas, Assírio & Alvim, Miguel Esteves Cardoso, pag. 241). O país dos ‘portuguesinhos’ é bonito, a comida é razoável, o clima é simpático. Sabe bem. É pior que o da Grécia e melhor que o da Inglaterra. No Reino de Portugal, as coisas más desaparecem devagar e isso produz um amargo na maioria das bocas. Como os dias de chuva em pleno Agosto. [Ruben P. Ferreira]

 

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