À beira da estrada



Em El Dorado (Edições Asa), Laurent Gaudé explora o fenómeno da imigração ilegal para a Europa e a aparente dicotomia entre quem circula livremente e os que abandonam o seu país à procura de uma vida melhor. Uns têm direitos, outros têm deveres. Os primeiros aceitam a vantagem sem poderem ser condicionados senão pela sua vontade. Os segundos sujeitam-se a todas as humilhações para concretizarem o sonho de pisar solo europeu – o ‘el dorado’. Endoidecem pela possibilidade de serem livres.
É elementar que os homens procurem uma vida melhor e que um autor decida abordar o problema clarificando a ideia de que a chegada à Europa pode ser tão má quanto a vida que alguns por cá levam. Gaudé decide também complicar a trama.
Num dado momento, a personagem principal, Salvatore Piracci, comandante de uma fragata que policia as águas ao largo da costa italiana, deixa que o seu pensamento se concentre na dor de quem salva e de quem vê desaparecer. É quando, na sua cabeça, se enlaça um nó denso e difícil de desfazer. O nó do miolo da Europa, de quem tem e não tem direito à liberdade: a cena em que, à saída do barco, um dos refugiados lhe pede para que feche os olhos e o deixe fugir, é paradigmática: marca uma transição na narrativa. Potenciada por outro acontecimento.
A presença de uma mulher. Não se pense que isto envolve um relacionamento ou uma emoção romântica. Nesta história, as emoções, ou melhor, os sentimentos, são utilizados na luta pelo pão para a boca e pela sobrevivência na diáspora ocidental. Há pouco de romântico na maneira como Salvatore permite que a destruição do seu elo à sociedade, que sempre o acolheu, o encaminhe para uma condição tão frágil como as que conheceu durante duas décadas de trabalho.
A mulher que o persegue durante um tempo pelas ruas da Catânia, terá pago um valor exorbitante para fugir de Beirute e de uma vida miserável. Fê-lo com uma criança nos braços. A meio da viagem, o barco terá sido abandonado pela sua tripulação. O resgate, a cargo de Piracci, não foi suficientemente rápido. A criança terá morrido. Como outros. Quando se encontram novamente, a mulher quer vingar-se de Hussein Maourk, o dono do barco, e pede uma arma ao comandante para realizar o plano. Quer atenuar uma dor provocando outra. A sua voz é pungente e explícita. Aliás, como toda a narrativa. Peremptória, crua e nua.
Num dos outros casos de desespero social, dois irmãos separam-se para sempre. A violência e o roubo são usados para alcançar os objectivos, embora essa verdade esteja oculta para quem fica. Depois de se decidirem pelo abandono, poucos serão os que terão coragem para recuar e voltar para casa. O estigma social e a vergonha de não terem conseguido superar as dificuldades toma conta do seu imaginário. Delapida-se o que sustenta a vida pela ambição egoísta de quem vive de expedientes, de observar os outros perder tudo por nada.
Num momento em que a Europa (União Europeia) decide as políticas sociais que definem com que facilidade as pessoas podem viajar no ‘espaço Schengen, as ‘minorias étnicas’ tentam integrar-se aqui. Isso é cada vez mais complexo para quem está fora. A liberalização do espaço de circulação em frente à Costa africana, à Arábia, e na fronteira com o Leste, tem seguido o princípio da ‘boa’ vizinhança. Para uns países, significa que, a longo prazo, poderão ser ‘integrados’ na União Europeia. Para outros, significa que mais cedo ou mais tarde terão de se proteger («The ins and outs», The Economist, 15 de Março de 2007).
Uns quererão forçar a entrada enquanto os europeus erguem uma voz mais audível de orgulho pelas suas bandeiras. Um paradoxo que não prenuncia nada de bom para os desintegrados nem para a Federação de Estados Europeus e os seus cidadãos.
Portanto, Laurent Gaudé, que conquistou o «Prémio Goncourt des Lycéens 2002», o «Prémio dos Livreiros 2003», o «Prix do Roman Populiste» e o «Goncourt», o mais importante prémio literário em França, em 2004, desfia um novelo sobre as condições em que vivem os imigrantes, descrevendo com particular relevo a luta permanente contra a injustiça das circunstâncias. Porque no seu caso, procurar viver melhor, em vez de se tornar num objectivo que pode permitir o acesso a uma condição permanente, transforma-se na única razão para viver, por falharem muitas vezes essa aproximação, por ficaram longos anos à espera de uma oportunidade que desaparece no tempo. Uma boa parte dessa gente morre às ‘portas da Europa’ sem ninguém que os possa chorar. O abandono já é em si mesmo uma morte prematura, havendo sempre a esperança de terem chegado cá sãos e salvos.
© Ruben P. Ferreira

 

Quantcast