É cada uma

Hoje vi uma rapariga caída no chão de uma estação de comboios com uma multidão à sua volta. Pacífica, quieta. Observavam o corpo inerte, apesar dos olhos abertos da menina. Respirava com dificuldade. Desconhecia-se o motivo. Ninguém foi capaz de lhe tentar devolver alguma dignidade. O círculo foi ficando cada vez mais espesso e ninguém a tentou reanimar, ajeitar o corpo. Ficou tal e qual como quando caiu. Por pudor, por medo, talvez um pouco de ambos. Por falta de cultura cívica. O burburinho foi aumentando, mas nenhuma voz se destacou para amparar a miúda estatelada no chão. Alegadamente, terão chamado uma ambulância. Dizia-se isso perto da banca dos jornais, comentário feito como se comenta o resultado de um jogo de futebol: com descaso e despreocupação, enquanto se compra uma revistinha cor-de-rosa.
Foi isso que me deixou varado. A incapacidade para ajeitar um corpo mas a disponibilidade para observar com displicência e comentar o facto com os desconhecidos mais à mão - presumo que seja o tema de conversa ao jantar.
A sociedade civil que temos desconhece cuidados básicos de primeiros-socorros. Sujeita-se a tudo e sujeita os outros a tudo. Em determinados momentos, é forçoso não mexer num corpo mutilado. Ora, ali não havia sangue ou o risco de um pescoço ceder. Havia uma rapariga indisposta que terá desmaiado, merecendo atenção imediata.
Há uma coisa que a sociedade civil portuguesa sabe fazer excepcionamente bem: ver o que se passa à sua volta como se se tratasse de um programa de televisão. De um acidente de viação na via pública. Ora, sinceramente, que raio de sociedade civil é esta? Creio que nenhuma.

© Ruben P. Ferreira

 

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