Clamor

Como te esqueces dos pontapés que levaste
da boca destruída e dos dentes partidos,
dos socos sisudos, da violência redonda,
de um encontrão descarnado?

Como te esqueces da insensatez da facada,
do espartano esgar de murro no estômago,
e do som das golfadas de líquido vermelho a jorrar,
dizendo coisas como: não me atires mais pedras à cabeça?

Como te esqueces da incapacidade de falar,
das fugas ineficazes por lugares escondidos,
se te encontram e desferem pequenos golpes,
telúricos ribombares de sopro áspero
assazmente repetidos?

Como te indignas perante a ignorância
se tanta vez te disse seres capaz de
ultrapassar a esperança sem cair no seu lodo?

Como te esqueces da tragédia,
como te afogas no teu sangue quente,
como és capaz de esganares a voz à minha frente
sem te lembrares sinceramente que o céu,
este céu, nunca será teu para sempre
se continuares a recusar correr para cá?

© Ruben P. Ferreira

 

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