Conversas no sofá



Com este livro pequeno de crónicas (Crónicas do Sul, Edições ASA), Luís Sepúlveda comenta o quotidiano com ares de aristocrata das Letras. Refere o óbvio e o oculto, aquilo que faz parte das entranhas da sociedade e o que está completamente à vista. A isso não é alheio o facto de este chileno usar a morte do General Pinochet (Dezembro de 2006) e os crimes que o ditador cometeu, para implicar a sua responsabilidade e daqueles que depois tomaram conta do Chile.
Há momentos em que parece desesperado, pela tonalidade da escrita, pelos títulos de acção requerida, a exigir uma interrogação, um contundente desafio. Mas essa perdição nunca é completa e integral, porquanto o fio condutor, a génese da sua abordagem, traduz sempre uma base filosófica, uma justificação que desmonta um dado adquirido, uma suposição compreendida na sua base bibliográfica, e ampliada numa conversa que se prolonga por todos os parágrafos. A zurzir contra tudo e todos, a deixar-se levar pela comoção. Há muito de cívico nestes textos.
Daí a possibilidade de conseguirmos ler prosas tão distintas e com uma temática tão diversificada, que vai desde a relação da América com o Chile, às eleições ‘livres’ em casa do escritor, aos novos governantes (Michelle Bachelet) eleitos, à ‘carne dos blogues’ – um pouco de tudo, até de Hugo Chávez –, à exploração e explicitação de situações deletérias no Chile, EUA, França e, no mundo.
É comum pensar que a estrutura de uma crónica se ajeita a essa transversalidade, por ser escrita com uma regularidade que exige do autor uma consistência diária, semanal, até mensal. Contudo, há também muito boa gente a fazer-se passar por cronista sem perceber que a agenda do cronista é não ter propriamente uma agenda e, portanto, estar disposto a deixar-se levar pela voragem dos seus dias. Mesmo se o tema central é o protesto e a luta contra a intolerância e a favor da igualdade, como é o caso.
A crónica é a antítese da notícia, embora se constitua no mesmo espaço de intervenção e lhe possa fazer um comentário. A sua fiabilidade pode assentar numa litania que exala uma irascibilidade torpedeante, ou uma temperança que provoca empatia. Depende de quem a escreve. Pode ser um prosélito do sistema (regime), ou um pungente poeta e letrista de gládio em punho.
Sepúlveda faz parte da segunda estirpe de cronistas. Enviesa como flaneur contemporâneo e comentador que quer agradar ao carpinteiro e ao intelectual seu conterrâneo. Quer fazer-se ouvir com a sala cheia. É transversal na proximidade ao leitor, procurando cruzar a erudição com a bonomia dos mais pobres – não de espírito. Desse modo, consegue estabelecer uma ordem que reporta à limpeza da consciência dos disparates que a turbulência social implica, fazendo a respectiva catarse. Distanciado dos interesses e das maquinações (reside em Espanha), resgata do quotidiano os pequenos elementos, as histórias aparentemente sem relação.
Uma boa crónica remete para lugares, ideias e mensagens nem sempre relacionáveis. O alvo do cronista tanto pode ser um familiar, um político, uma pessoa estranha, uma imagem que o comoveu ou apaixonou. Uma palavra de eleição. Esses enunciados são aqui desenvolvidos de um modo bastante cocote, fundados no Homem.
Fazer da interpretação e leitura dos outros por palavras suas matérias de trabalho envolve certos riscos. Há dias em que corre tudo mal, outros em que corre tudo às mil maravilhas. Quando as semanas deixam antever uma média de nível elevado, passa-se a crónica a livro.
Alguns livros de crónicas são apenas um aglomerado de experiências inócuas. Outros haverá que, mesmo sem a estrutura do romance a emergir, conseguem suportar-se sozinhos, pois as recordações, os objectos tratados, as pessoas referidas, os acontecimentos descritos, são referenciais tão importantes quanto os da literatura de longo fôlego. Aliás, essa intermitência promove o seu confronto e explicação com (d’) aquilo que é contemporâneo. Pela evidente mesura, este livro faz parte do segundo género.

© Ruben P. Ferreira

 

Quantcast