Literatura reduzida

Vê bem o tom dos olhos, confirmação de deleite, de sabor de água que escorre livremente, acqua di vita, rodízio de palavras e vozeirões a acorrer à consciência em tonalidades diversas, num bulício que admite uma incompreensão profunda feita melodia de poderes ocultos, de diálogos comprimidos em falas descombinadas e pouco claras, sem princípio nem fim, a revelar medo e intermitências na voz. A imagem em pleno movimento contraria a ideia de uma parede estanque. Uma voz faz-se ouvir num grito que ensurdece quem se aproxima, rouca e subtil para os moradores que estão longe. Uma voz que o íntimo gosta de calar, a sofrer plenamente com o rodopio pela esfera de um dia, um dia acomodado ao seu escorregamento, a lidar com dicionários e regras discricionárias, folhas de trapos esquecidos e velhos para deitar no lixo. Os livros estão fechados, empilhados uns em cima dos outros, à espera da coragem que, como uma voragem a percorrer o corpo todo, pode fazer descansar os olhos num sono reparador de minutos. Quando a sua água se enforma numa liquidez relativa.
© Ruben P. Ferreira

 

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