‘O amor sobreviver-nos-á’*




Fernando Pinto do Amaral (A Luz da Madrugada, Dom Quixote) inicia a sua perambulação diegética com uma proposta: o ensino que a poesia pode oferecer. Em “Lição”, o poema constrói-se a partir da ideia de que os actos obscuros (ou não) cometidos por todo o lado, podem ampliar a possibilidade de emocionar o autor, e de essa aparente medida poder também encerrar ‘medo’ e ‘pânico’. A redenção é concebida pela palavra. Pela acção passada, denunciada por um desejo de apropriação que ainda se mantém vivo, sustentado pelo convite à observação e à recuperação da espiritualidade.
Veja-se: “Quiseras que este mundo te ensinasse/ uma palavra nova,/ uma gota de luz que atravessasse/ os corações de toda a gente,/ o seu coro de espectros dissonantes,/ o corredor tão escuro onde se abriga/ o princípio do medo,/ a tua alma/ em pânico.”
Está dado o mote para certas evocações de horas tardias dominadas pela revisão e nostalgia. O racionalismo da escolha dos temas contrapõe-se com a dedicação utilizada para se inteirar da “Queda” (A Lenta Volúpia de Cair, Pedro Eiras, Edições Quasi, pag. 25) de cada poema. Aparentemente, o seu desejo mais profundo é a reconciliação. A necessidade de refundar-se nos primeiros estágios do percurso, e de tentar reconhecer as diferenças perante a estranheza da sua chegada recente a um espaço deixado para trás em momentos anteriores.
Porque perpassa uma humanidade lateral à esperança de que o conflito, a aprendizagem, a leitura figurativa dos dias pode ser contaminada pela sua génese criadora. De tentar compreender as distâncias entre o antigo e o contemporâneo.
“Falam do ludíbrio a que chamam/ o futuro/…/ por um preço acessível: emoções/ & sexo & fama & outros prometidos/ paraísos terrestres em horário nobre/ - matéria reciclável/ alimentando o altar do esquecimento.// O poder não existe, como sabes/ demasiado bem – apenas uma/ inútil recidiva biológica/ de hormonas apressadas que procuram/ ser fiéis ao comércio/ dos sonhos sempre iguais, reproduzindo/ sedutoras metástases do nada/ nos códigos de barras ou nos cromossomas/ de quem já pouco espera dos seus genes.” (“Século XXI”) Neste primeiro capítulo, a poesia é o alvo fácil da pena de Pinto do Amaral.
Em "Piloto Automático", a sequência é bastante mais abstracta. Mantém, contudo, a direcção. Personifica-se numa pessoa a quem é dirigido o discurso, de quem se anseia proximidade, cuja existência descobre interrogações que faz a si mesmo. É uma imagem que o espelho devolve, pois fá-lo quando interpõe a si mesmo questões essenciais sobre o tempo, as pessoas amadas, a origem do amor, a consistência do corpo moldado à sua evolução e envelhecimento. Quando se coloca no lugar do objecto- reflexo e propõe retomar a crença na existência de Deus.
Chegados a "Eclipses", um conjunto de verbos de acção enunciam a imposição de uma interrogação que se ajuste à contemplação de uma possível resposta: ‘deixa, entreabre, entra, continuas, repetes, contempla, pede, atravessa, ama, não acendas, olha.’ Nunca há uma resposta definitiva. Os ‘labirintos’ estão de novo visíveis, e o caminho espiritual entre o ‘céu’ e o ‘inferno’ faz-se das etapas vencidas, das luzes celestiais acesas e assentes sobre o nada, que pode ser o estado de humor (e amor) de quem escreve, ou a suspensão articulada de quem se impõe nestas questões: “Ama de novo a sombra, essa verdade/ resistente às palavras./…/ Ama de novo a sombra quando a noite romper as tuas veias.” (“V”)
Daí que aos três últimos capítulos, "Geografia Humana”, “Verões” e “As flores do fogo”, seja comum um concretismo espacial e temporal. Os poemas desta ‘nova ordem’ estão contaminados por imagens recorrentes da paisagem silenciosa que o poeta entaipa. A janela de leitura abre-se e esquadrinham-se os trilhos desse movimento sobre o qual se observa a militância eruptiva do ‘cosmos’ terreno – ‘a rua’, ‘o exercício/ de esplanadas e bares/ com raparigas demasiado belas’, ‘o aeroporto de Bando’, ‘os gulag de vidro transparente’, as ‘notícias que lês no jornal’.
A melancolia nunca é verdadeiramente abandonada. É, aliás, o modus operandi do raciocínio por vezes sincrético do autor. Recupera-se a sugestão de que as relações humanas são essenciais, de que o ‘nevoeiro’ é uma poeira simples desbaratada aos poucos pelos átomos da Natureza. Essa ‘poeira’ são as pessoas que se conhecem, que se perdem, os rostos inesquecíveis porque amados, porque tão singulares; as concepções que a consciência delineia e confere para as transformar em desenlace criativo. A citação de Larkin no último capítulo é peremptória deste estado de espírito: “What will survive of us is love.”* Fecha-se o ciclo iniciado. A memória que, em ‘cinzas’, se mantém bem viva.
*tradução livre do original

© Ruben P. Ferreira

 

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