Saudade

Hoje volto a olhar para ti numa fotografia, ao lado de outras fotografias, estavam arrumadas num lugar escondido. Insinuas um sorriso com uma certa ironia. Um sorriso de bondade. Parece que estás a fazer um esforço para não te rires, talvez tivesses uma grande cumplicidade ou empatia com o fotógrafo e quisesses conter-te um pouco. Podias estar intimidado, feliz, e querias guardar isso para ti.
Naquele tempo, o teu cabelo ainda era escuro, ondulado apenas para um dos lados, estava bem cortado, as manchas brancas ainda estavam invisíveis. Na fotografia a preto e branco, o teu cabelo preto era ainda belíssimo, cheio de vida e ondinhas pequenas.As tuas rugas eram pouco marcadas. Os contornos do teu rosto estavam bem delineados. A barba estava bem feita. O teu corpo era uma massa formosa e delicada. Não tinhas nenhuma elevação perto do pescoço, a emergir por cima do ombro. As metástases ainda não se tinham espalhado por todos os poros da tua pele. Tinhas uma gravata cinzenta com bolas pequeninas, uma camisa branca e um blazer escuro que te assentava perfeitamente. Se bem me recordo, era castanho escuro.
Ao abrir este livro, ao acaso, onde num momento qualquer quis guardar a tua fotografia junto à imagem dos teus outros dois filhos, a cores, consigo discernir que nos une uma marcação profunda nos lábios. Levemente fechados, contêm cada sorriso pronto a ser oferecido. Na pureza irremediável do olhar que as crianças revelam quando querem ver alguém por dentro. Lembro-me de gostares de nos tirar fotografias. Desfolhando estas imagens, recordo um pouco do bom que foste e descubro que partilhamos a espessura das sobrancelhas. Isso faz-me bem.

© Ruben P. Ferreira

 

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