Um acto de amor




Dylan Thomas escreveu que o poema mais importante é aquele que, ‘trabalhado acima de passagens pouco mágicas, se aproxima em textura e intensidade, dos mágicos momentos que sucedem’.[1] Thomas usa a palavra ‘accident’, que traduzo por ‘sucedem’.
A ‘textura’ e a ‘intensidade’ são os elementos preponderantes da matéria do criador que, opondo-se à sua própria irracionalidade, utiliza os códigos da linguagem para exteriorizar uma ideia, uma ‘mágica’, uma imagem ou um sentimento que deseja ver reproduzido e exposto nesse gesto gerador de redenção. Isso é uma forma de amor.
Este livro («As Metamorfoses», de Agustina Bessa-Luís, com pinturas de Graças Morais, Dom Quixote,) é, de facto, um acto de amor. As personagens que Agustina tem criado ao longo dos anos são um índice remissivo de como o povo português (e o mundo, já agora) têm evoluído ou permanecido refém de pressupostos, de vidas, de conceitos, de ideais, gestos e paradigmas que a autora tem, desde o início da publicação da sua obra, revolvido e esmiuçado, a fim de estabelecer a sua narrativa dos acontecimentos e dos eventos ocorridos – Agustina podia ser apenas uma ensaísta e filósofa. O facto de não querer realizar a obra perfeita pode ser discutível (como, em tempos, escrevi), mas como a própria disse numa entrevista a Maria João Seixas, que passou na RTP: «a vida não é perfeita [pelo contrário], porque razão deverá sê-lo a literatura» (estou a citar de cor).
De facto, n’As Metamorfoses, a dinâmica da criação das personagens entra em linha de convergência com o contexto em que foram criadas, num enunciado artístico. As suas palavras identificam o seu movimento, as relações e ralações com os outros, estes identificados como os membros activos da bibliografia mental (ficcional) da autora. A possibilidade de as vermos retratadas em desenhos, esboços e pinturas da autoria da artista plástica (pintora) Graça Morais representam uma mais-valia. Um bónus, porque a maioria das vezes somos levados pelos autores a pensar como determinada personagem pode ser, e até podemos ficar aquém do pensamento gerador, ligados a uma imagem extremamente vaga.
A sugestão dada é apenas isso, uma ideia de como aquelas pessoas poderiam existir - e muitas são mesmo verdadeiras. É uma interpretação da obra e funciona como legado. É uma intervenção no espaço narrativo. Não esconde nem antevê sem fechar completamente o número de corpos e matérias possíveis de determinar.
Quer dizer, podemos até discordar daquilo que nos é proposto mas, o desenho é, por vezes, tão abstracto, que se autonomiza como obra, sem nunca se desligar do que lhe deu origem. Não precisamos de mais porque aquilo basta-nos, mas podemos querer ver outros lados da história apresentada, e para isso é preciso demorar o olhar. É preciso ficar quieto a ouvir a voz oculta que o texto prolonga ao longo dos desenhos, quer se concorde ou não com a união entre a Literatura e a Arte - confundir-se-ão?
As páginas estão bem compostas a nível gráfico, o que permite que os desenhos e pinturas de Graças Morais sobressaiam tanto como o texto, e sejam vistos perante esse enquadramento da ordem natural das coisas - parece que a Literatura sempre foi desta maneira. Porque, ao fim e ao cabo, depois de visto e relido, este livro lança sobre o leitor a interrogação: chegou a alguma conclusão?

© Ruben P. Ferreira

[1] «And the best poem is that whose worked-upon unmagical passages come closest, in texture and intensity, to those moments of magical accident.»

 

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