2008



De volta, notícias tristes e lamentáveis. A morte de Torcato Sepúlveda, jornalista e crítico literário de monta, e de Alfredo Saramago, gourmet, investigador gastronómico e aficionado da boa vida – das charutadas ao vinho com corpo. Lia a ambos com regularidade na imprensa (e não só), mas apenas privei com o segundo. Tive o privilégio de almoçar com ele, uma única vez, no Midori, o restaurante japonês que fica no hotel da Penha Longa, em Sintra. Sim, sim, privilégios. Apenas posso agradecer ao Paulo Barriga ter-me oferecido o convite, enquanto me dizia, ‘Olha que aquilo vai ser muito bom’. Foi mesmo. Almocei com ele e com uma quantidade assinalável de Chef’s de cozinha portugueses – e alguns estrangeiros. Foi uma tarde inteira dedicada a comer peixe relativamente cru com o alto patrocínio de uma muito conhecida marca que vende bacalhau. Recordo um episódio divertido. Sem parcimónia, os empregados de mesa abriram cedo demais uma dúzia de garrafas de vinho branco e começaram a servir. Alfredo Saramago é o primeiro a quem se dá a provar o referido néctar. Já tinha visto fazer provas, só que aquele momento de silêncio, com toda a gente a olhar na direcção dele, fez-me sentir que há religiosidade envolvida no acto de beber e, já agora, de comer. Aquilo que estava a acontecer era importante, e o que se seguiu igualmente. Alfredo saboreou o vinho e pousou o copo delicadamente, olhou para o empregado com sabedoria e concluiu: “O vinho desta garrafa está oxidado.” Obviamente, pensei eu. À época, desconhecia o termo e o seu significado. Aprendi mais tarde. As garrafas de vinho foram recolhidas de imediato – perante o meu extasiado choque – e voltaram a abrir outras. Estive três dias a digerir a experiência. Não pelo lugar, mas também pelo lugar. Não pelas pessoas, mas também por elas. Não por Alfredo, mas sobretudo por ele. Pelos livros que escreveu e deu à estampa, merecia uma verdadeira homenagem que ainda não vi exibida em nenhum canal de televisão. Pela dedicação, pelos textos escritos de um modo veemente e apaixonado. Por outro lado, no que diz respeito à selecção nacional... Bem, recordo um texto escrito por Saramago n’ A Preguiça (revista de O Independente) sobre a comida vendida nas áreas de serviço das auto-estradas. Recebeu respostas de indignação e reclamação de todo lado, publicadas na secção de Cartas Viciadas. Nenhuma delas justificava realmente os preços elevados e a qualidade reduzida da comida que, por sinal, ainda se mantém. Só que Alfredo Saramago escrevia com segurança sobre o assunto e fazia-o bem. Tinha razão, e é pena que tenha desaparecido. Tal como Sepúlveda. São pessoas que nos vão fazer falta porque, gostando do que faziam, conseguiam ser generosos e ensinar alguma coisa aos leitores. Coisa rara nos dias que correm.

© Ruben P. Ferreira

 

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