«A Chamada Reforma Ortográfica»

«31.
O argumento da uniformização é uma coisa, a base em
que uniformizar é uma outra. Sobre as vantagens da unifor-
mização ortográfica estamos, creio, todos de acordo; não o
estamos sobre a ortografia que haja de ser a uniforme.
Também não o estaremos, suponho, sobre a imposição
da ortografia. Que, tomada certa ortografia por oficial, dela
use o Estado nas suas publicações, não é mais que inevitável
e justo. Sobre o que sejam, para este efeito, «publicações do
Estado» haverá um pouco mais de dúvida. Os documentos
Oficiais, «Diários do Governo», etc. por certo que são publi-
cações do Estado. Os livros de estudo primário – isto é, os
por onde se aprende a ler – usados nas escolas do Estado,
também o serão. Que tem, porém, o Estado com os livros
que se empregam nas escolas particulares? Que tem com os
livros que servem, não para ensinar a ler, mas para ensinar
coisas que neles se lêem?
A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto
um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espíri-
to. O Estado não tem o direito a compelir-me, em matéria
estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repug-
no, como não tem direito a impor-me uma religião que
não aceito.

No Brasil a chamada reforma ortográfica não foi aceite,
nem ainda hoje, depois de assente em acordo entre os
governos português e brasileiro, é aceite. Quis-me impor
uma coisa com que os Estado nada tem a um povo que a
repugna.


32.


Que havia de reformar? Legislar para os mínimos, de
que a lei e o pretor não curam? Impor que se deve escrever
letra e não lettra, ou o avesso? Para quê? O ponto é duvido-
so, e onde há dúvida não pode haver ciência. Sofreu deveras
a rigidez da grafia romana, ou a correspondente rigidez de
essa disciplina mental, com o escrever em uns litera, outros
littera, quando no caso não havia certeza?
Mas, se havia de reformar, a reforma não haveria de
ser senão em tornar o sistema mais lógico, mais coerente
consigo mesmo, onde porventura o não fosse, sobrepondo
um critério científico, isto é, crítico ao critério puramente
humanista, isto é, erudito dos originadores do sistema. Em
suma, em intelectualizar o critério intuitivo em que o siste-
ma, em seus dois elementos, se formara.
Erguer o sistema, por assim dizer, à consciência de si
mesmo.»


[de A Língua Portuguesa, Fernando Pessoa, Obras de Fernando Pessoa, Assírio & Alvim, pag. 89-91]

Adenda: Feitas as devidas ressalvas temporais, o escritor que tem, aqui e ali, sido homenageado, escreveu o essencial. Um acordo ortográfico não deve basear-se numa ideia de’uniformização’, mas de integração intelectual. Um conselho útil para os 'especialistas', a braços com a 'criança'.

 

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