Vejo dois homens adultos, muito altos, vestidos daquela maneira descomprometida que leva as pessoas a saírem de casa sem grandes arranjos estéticos, para seguirem caprichos de última hora. Com cerca de trinta anos, por certo amigos de longa data, estão na fila do supermercado dos móveis mais chiques cá do burgo. Discutem banalidades. Um recebe um telefonema em que tenta expressar uma opinião sobre uma funcionalidade do Google, mas prefere adiar a conversa. A dada altura, o outro sugere a compra de um chapeaux, daqueles enormes, que ficam tão bem num jardim amplo. "O que achas de levar um chapéu daqueles?" "Impecável, parece-me bem", responde o outro. Passados dois minutos, a caixa está em cima do carrinho, pronta a ser assimilada pela máquina devoradora de códigos de barras. Um pergunta ao outro, em surdina, quase religiosamente: "Então e bago, precisamos de bago!", não que lhe faltasse, simplesmente, esquivava-se a fazer de bom samaritano. O outro nem responde, considera aquilo um pormenor, qual resposta, aliás, diz qualquer coisa, uma ironia: "Pois, bago...?!", e deixa-se estar, continua a conversar sobre as banalidades anteriores, a casa nova, o que o preocupa, estende o cartão quando lhe é solicitado o pagamento (de algumas largas centenas de euro), confessa querer água, que compram à saída, e abandonam o lugar definitivamente, um em cada carro (escuso-me a identificar as marcas). Aquelas duas pessoas não tinham cansaço à vista, uma pessoa olha para eles e inventa-lhes uma vida adequada ao diálogo, em que aquilo que digam se enquadre na (des)preocupação revelada, no (quase) descaso com o dinheiro dispendido. Despreocupação de quem até pode estar ciente da distância que o separa da restante sociedade, num espaço que é raro, mas para quem esse assunto tem uma importância relativa. Porque, ao fim e ao cabo, de facto, o mundo é um lugar em que alguns chegam perto das caixas registadoras a contar os trocos, o número de objectos no cesto ou no carrinho, tudo contadinho, a consciência a pesar por considerarem que aquilo pode ser um excesso, uma ousadia perante os seus parcos orçamentos e economias, enquanto outros, bem dispostos, caminham sem problemas, quer dizer, têm da noção de viver uma visão completamente aprazível, promovida por uma hiper-protecção parental, e continuam com trinta anos a revelar a ingenuidade que aos quinze ou vinte os dominava, quando iam a Londres buscar a última novidade electrónica ou, simplesmente, fazer compras. Uma imagem que o cinema vende, baseada, como a maior parte, em casos reais, em vidas verdadeiras. O dinheiro era, ali, um subproduto. Tinha pouca, ou nenhuma importância. Aquelas duas pessoas tanto podiam estar na fila do supermercado como na recepção de um stand da Ferrari. Aquela leveza de espírito - que nada tem a ver com falta de cultura, estupidez, parvoíce, despeito ou inveja - era um dado adquirido, uma certeza, que de modo nenhum se pode partilhar. Sobretudo agora, quando se discute se a classe média deve continuar a trabalhar 35 horas semanais, ou se deverá ser escrava dos patrões e das novas exigências sociais, quando as 70 horas forem instituídas como regra de ouro de uma empresa, organismo ou instituto que goste de gabar-se (e de demonstrar) de ter 'capacidade de trabalho'. Um dia, seremos todos autómatos, robôs de uma eficiência ampliada e promovida como bem comum, como nova religião, bem como clientes ciosos da sua evidência, capazes de exigir o que não é determinável, se possível, a um preço mais baixo. Um dia, o que era abominável – ser escravo numa barcaça de velas sopradas pelos ventos do Atlântico (em quinhentos) –, será tolerado. Um dia, a sociedade será higienizada dos elementos que provocam distúrbios, na tentativa de padronizar e mecanizar as acções. Alguns iluminados (e privilegiados), que se converteram a tempo ao labor caseiro, ou que souberam espraiar-se para além do raio envolvente do capitalismo enfurecido e maquinal das empresas, conseguirão, por um dia, por um mês, por um ano, por mais tempo até, viver a vida para que nasceram. Esses e aqueles que subsistirem das posses de família que, se bem geridas, podem perdurar por várias gerações.
© Ruben P. Ferreira
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