«Para A Rosa Secreta»

Distante Rosa, secretíssima e inviolada,
Toma-me na hora para mim destinada,
Onde quem no Santo Sepulcro te procurou,
Ou no tonel de vinho, vive para lá do que o perturbou
E do tumulto dos sonhos derrotados; e no fundo,
Entre pálidas pálpebras pesadas de fecundo
Sono, o Homem nomeou a beleza. Nas tuas folhas o tesouro
De barbas ancestrais, os elmos de rubi e ouro
Dos Magos coroados; e do rei que com seus olhos viu
As Mãos Perfuradas e a Cruz Antiga que subiu
Em druídico vapor, as tochas apagando
Até ao vão delírio por que ele tombou agonizado;
E desse que encontrou Fand por entre o orvalho fulgente,
Numa costa sombria onde jamais soprava o vento,
E por um beijo dela perdeu o mundo e Emir;
E desse que fez os deuses saírem da cidadela
E, até despontarem cem rubras auroras, celebrou
E sobre as campas dos seus mortos chorou;
E do rei orgulhoso e sonhador que recusou o fardo
Da coroa e da mágoa e, chamando bobo e bardo,
Errou na floresta entre viandantes de vinho manchados;
E desse que vendeu a casa e as terras e os arados,
E buscou por ermos e ilhas um tempo infindo
Até enfim encontrar, chorando e rindo,
Uma mulher de porte tão radioso e belo
Que à noite os homens debulhavam milho sobre o seu cabelo,
Uma fina trança furtada. Também eu aguardo com ardor
A hora da tua rajada de ódio e amor.
Quando do céu se hão-de as estrelas atear
Como fagulhas de uma forja, e expirar?
Chegou seguramente a tua hora, sopras a forte rajada
Distante Rosa, secretíssima e inviolada?

[de Onde Nada Existe, «Para A Rosa Secreta», W. B. Yeats, Relógio D’Água, Clássicos, pag. 25-26, tradução de Margarida Vale de Gato]


[Ruben P. Ferreira]

 

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