As Senhoras



Ana Nobre de Gusmão e Sofia Marrecas Ferreira publicaram respectivamente, A Prisioneira de Emily Dickinson e Só por Amor (ambos, Edições ASA), romances que partilham semelhanças do ponto de vista da estrutura narrativa, daí reuni-los na mesma recensão. Desde logo, a escolha de um clã para centralizar a concretização dos acontecimentos e para dar lastro ao movimento das personagens.
É evidente que a ficção portuguesa está a mudar, veja-se o caso de walter hugo mãe (o apocalipse dos trabalhadores, Quidnovi), e estes dois honrosos exemplos confirmam-no. A razão? Bem, a dado momento de Viagem por um Século de Literatura Portuguesa, de Nuno Júdice, diz o também autor: «Há sem dúvida, um antes e um depois de Saramago na nossa ficção contemporânea, sendo esta separação mais visível, até, do que a separação entre o antes e o depois da Revolução. É evidente que as coisas não começaram nem acabam num autor; mas é nítida a posição de charneira ocupada por este romancista e a obrigatoriedade da sua referência num quadro em que, apesar de tudo, já existia um Miguel Torga, um Vitorino Nemésio e um Aquilino Ribeiro.» (colecção À volta da literatura, Relógio D’Água, pag. 78).
Em A Prisioneira de Emily Dickinson, assistimos ao desenrolar do crescimento de uma adolescente muito curiosa da obra de Emily Dickinson, culpa, em parte, do interesse de uma professora inglesa (Miss Donna) com quem priva, juntamente com uma amiga (Sara), em aulas sobre o idioma e culturas anglo-saxónicos. A estrutura é contaminada por inúmeras citações da obra da autora americana, e Ana Nobre de Gusmão realiza o esforço de biografá-la, ou de contar pequenos ‘segredos’, contextualizando os passos da escritora e o que a levou a escrever de uma determinada maneira num determinado momento – percebemos que o clã também tem influência nesse processo de desenvolvimento pessoal e intelectual. A personagem Emília ajuda a fazer de Emily Dickinson uma figura central que influencia toda a gente, porque a admira e quer seguir-lhe os passos, por estar constantemente a dialogar com a sua sombra, por gostar de dizer aos outros o que a escritora pensaria nesta e naquela situação. Suscita-se à personagem principal um crescimento cimentado na memória.
Emília brinca com peluches, ouve atentamente as histórias que o pai lhe conta antes de dormir e mantém durante toda a adolescência e idade adulta, um interesse invulgar na escritora americana. Enquanto a mãe lhe cerceia a vida, questionando esse interesse e os ditames que a adolescência adorna, a forma de as personagens se tratarem, pelo primeiro nome em vez de pelos títulos comuns, desejada pela sua mãe, cria tensões e faz aproximar a avó (que considera o hábito estranho) da neta, porquanto a separação da mãe. Emília é sujeita ao processo de catarse materno, que lhe apõe a carga de o pai ter morrido novo, aumentando a distância entre ambas enquanto aquela cresce e se autonomiza, e se transforma numa mulher adulta. Essa distância mantém-se até ao final da história. Emília, como Emily, aprecia o facto, por nunca ter tido coragem para prolongar as suas relações, para fundear-se num único lugar e com uma única pessoa. E essa incapacidade para integrar-se e partilhar, para se devolver a alguém que cuide dela, como o pai cuidava, acaba por ser fundamental no desfecho.
No caso de Só por Amor, Sofia Marrecas Ferreira escolheu desenvolver a história pelo seu ritmo crono (lógico), contando as peripécias de três gerações de mulheres da mesma família, em torno de um lugar central, uma herdade no Alentejo («Herdade das Mouras»), e Lisboa, num prédio da Rua do Arco do Carvalhão. A narrativa está povoada de mulheres centrais: Francisca, Maria e Maria da Luz; e de homens que têm tendência para nunca estarem à altura das ocorrências. E, quando estão, acontece alguma coisa trágica que o faz perderem o lugar, isto é, morrer. A verdade é que nestes dois romances a morte é tratada como uma provocação (A Prisioneira de Emily Dickinson) e um dado adquirido e/ou surpresa (Só por Amor). Por outro lado, Só por Amor reflecte sobre os jogos conjugais e a dureza das relações matrimoniais distanciadas, tendo como base um casamento de conveniência que termina de uma maneira abrupta. A acção está ‘manchada’ de memórias antigas, de efeitos alegóricos e de manchas cinzentas e nebulosidades. O interesse de Margarida Velha (uma sábia) pelas mulheres daquela família, faz emergir uma sabedoria ancestral de diálogos, ou melhor, monólogos, aparentemente imperceptíveis, e que acabam por concretizar-se numa desfaçatez da vida para com a descendente mais nova. Parece que apenas aquela mulher velha pode saber, ou tentar adivinhar, como tudo sucederá, o que nem sempre lhe dá lastro para manifestar-se. São mais as vezes em que fica calada. Quando fala, é para confessar o que ninguém quer ouvir. «Esta menina há-de andar pela vida como um botão sem casa, um vaso sem flor, um céu sem Sol.» Estas palavras são sobre Maria, ainda pequena, quando ainda desconhecia o marido Henrique, antes mesmo de ser despejada de casa para continuar a fazer a vida de outros tempos pois, finalmente, cumprida uma paixão antiga, tinha no ventre o que aquele homem corpulento e denso nunca lhe tinha proporcionado.
Na realidade, as mulheres deste romance são muito sofridas. A terra tem o poder de se manifestar como um monstro devorador, e de derrubar qualquer ideia de prosperidade. É o caso da quinta, que mesmo mudando de proprietários, nunca altera o seu percurso famigerado e sinuoso pelos intervalos da miséria. Na cidade, onde a terra tem pouco efeito e valor, pois está a maior parte das vezes ocupada e escondida, são as pessoas que se substituem à manifestação de austeridade e aridez dos vales alentejanos, como Estrela, a empregada que nunca aceitou a mulher de Henrique, tendo-lhe um ódio ciumento que levou a jovem a detestar o convívio citadino. Excepto com um apaziguador da mente, contacto materno, que também se esboroa no quotidiano das aflições.
Portanto, duas narrativas povoadas de silêncios, uma efectivamente (ou aparentemente) com uma estrutura mais contemporânea do que outra (A Prisioneira de Emily Dickinson), pelo recurso a pequenos textos citados de emails, a entrecortar a acção, forçando a leitura a desenvolver-se sobre o espectro de ângulos, vozes e frentes diferentes. Em Só Por Amor, a narrativa foi estruturada como um guião com um único narrador, e a história desenrola-se de cena em cena, deixando para trás o supérfluo, a fim de encontrar-se um ponto médio de cabimento para um final medieval e perturbante. Duas boas leituras para este Verão.

© Ruben P. Ferreira

 

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