Leituras

Aqui ficam algumas sugestões de leitura que merecerão atenção muito em breve. [RPF]




«Enviou uma carta no correio da estação. A seguir, ao tirar dinheiro na caixa multibanco, reparou que as suas mãos tremiam. Limpou os óculos e assegurou-se de que trazia consigo o passaporte, os bilhetes de viagem e a agenda pessoal. Encontrou um lugar à janela. Quando o comboio abandonou a estação em direcção a Genebra nevava em grandes flocos lentos.» Comboio Nocturno para Lisboa», Pascal Mercier, Dom Quixote, pag. 41]




«Mas nesse instante a minha atenção foi desviada para um espectáculo surpreendente. A quinhentos passos de distância, na volta de um promontório, deparou-se-nos uma floresta alta, frondosa, espessa. Era constituída por árvores de altura regular, talhadas como guarda-sóis, de contornos firmes e geométricos; as correntes de ar pareciam não tocar na folhagem, e, à passagem do vento, permaneceriam imóveis como um maciço de cedros petrificados.» [«Viagem ao Centro da Terra», Júlio Verne, Colecção Clássicos, Publicações Europa-América, pag. 158]



«O derradeiro objectivo de Marx e Engels era a criação de uma sociedade comunista mundial. Acreditavam que o comunismo existira em séculos distantes, antes de surgir a «sociedade de classes». Alegadamente, a espécie humana não conheceria hierarquia, alienação, epxloração ou opressão. Marx e Engels previam que tal perfeição poderia e seria inevitavelmente reproduzida após derrubar o capitalismo. No entanto, o «comunismo moderno» teria ao seu dispor os benefícios da tecnologia mais recente, ao invés de pedras para fazer fogo. Seria gerado pela solidariedade global do proletariado, ao invés de grupos díspares de homens das cavernas analfabetos. E poria o fim a todas as formas de hierarquia. A política chegaria ao fim. O estado deixaria de existir. Não haveria distinções de estatuto pessoal e poder. Todos participariam na administração directa numa base de igualdade. Marx e Engels censuravam os comunistas e socialistas que se contentassem com menos do que isso. Eram maximalistas. Nenhum compromisso com o capitalismo ou o parlamentarismo era para eles aceitável. Não pensavam em si mesmos como homens que propunham a palavra de ordem «ou tudo ou nada» nas suas políticas. Viam o comunismo como a última fase inevitável da história humana. Rejeitavam os seus predecessores e contemporâneos rivais como pensadores «utópicos», destituídos da dimensão científica.
Passaram o resto das suas vidas a tentar perceber como associar esta visão a uma justificação intelectual.» Camaradas - Uma História Mundial do Comunismo», Robert Service, Colecção Grandes Biografias, Publicações Europa-América, pag. 43]

«Foi nesse período em que, de facto, tudo estava a correr mal, digamos que há uns cinquenta anos, que nós, Os Doze, abrimos o grande charco na base da Queda para ser usado pelas crianças pequenas. Estávamos a criar novas quintas e florestas, e lagoas para peixes de água doce. Construímos silos para o armazenamento seguro do cereal, ou melhor, dos cereais, pois estávamos sempre a adquirir novas espécies: quando DeRod enviava os seus grupos atacantes, aproximávamo-nos silenciosamente de alguns soldados e ordenávamos-lhes que trouxessem quaisquer tipos de sementes que não cultivássemos. Criámos um lago, a partir de um rio que corria para o mar perto de As Cidades. Imaginávamos que Destra estava a observar-nos e a aprovar. DeRod não parecia importar-se com o que fazíamos. Nunca tecia comentários, quer para aprovar quer não.» As Avós e Outras Histórias», Doris Lessing, Editorial Presença, pag. 150]



«No rescaldo do 11 de Setembro, tem havido muita discussão infrutífera sobre o que nos separa deles. O que geralmente se toma como certo é uma imagem de um mundo onde os conflitos surgem, em último caso, de conflitos entre valores. É assim que o encaramos, tal como é assim que eles o encaram. Esta imagem do mundo tem profundas raízes filosóficas, foi pensada, considerada e é plausível. E, na minha opinião, está errada.»Cosmopolitismo - Ética num mundo de estranhos», Kwame Anthony Appiah, Colecção Biblioteca de Ideias, Publicações Europa-América, pag. 17]




«From Chile to China to Iraq, torture has been a silent partner in the global free-market crusade. But torture is more than a tool used to enforce unwanted policies on rebellious peoples; it is also a metaphor of shock doctrine's underlying logic. [...] Believers in the shock doctrine are convinced that only a great rupture - a flood, a war, a terrorist attack - can generate the kind of vast, clean canvases they crave. It is in these malleable moments, when we are psychologically unmoored and physically uprooted, that these artists of the real plunge in their hands begin their work of remaking the world.» [«The Shock Doctrine - The Rise of Disaster Capitalism», Naomi Klein, Penguin Books, pags. 15 e 21]


 

Quantcast