Sabor de verdade

Sinceramente, gostava de ter tempo para te ver mais vezes, para chegar capaz de sussurrar uma palavra ao teu ouvido. Só que chego a casa sempre tão cheio de mazelas no corpo que arrasto desde a porta do emprego até à beira da cama, que ao fazer uma festa carinhosa na pele do teu rosto apenas consigo delinear o espaço necessário para me deitar ao teu lado. O Sol desponta, na sua virtude luminosa, a aquecer devagar as gotas do orvalho matinal. Água que vejo cair desordenada quando abano sem querer uma extensão de arbustos que fica no caminho de retorno. Esbarro neles confiante de que nada lhes acontecerá. Contigo acontece o mesmo: chego a casa e enfio-me na cama ao teu lado, esperando que a minha ausência te suscite a necessidade de me teres ao teu lado, cumprida, é verdade, quando despertas do teu sono para me aceitares, como ontem fizeste, sem recriminações, embora apenas te veja de manhã, naquele instante, para depois adormecer todo o dia.

© Ruben P. Ferreira

 

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