«O camião desapareceu num sítio chamado Plains. As ruas eram todas em tijolo. Automobilistas em passeio nos seus Mavericks. Havia um tráfego incompreensível enquanto andava à procura de um motel para dormir.
Encontrou um que se auto-anunciava como «Um Toque de Veludo – Quartos de Luxo». Achou que merecia um pouco de veludo. Sentir-se entre veludo era precisamente o que ansiava. Aquele veludo podia ser um refúgio depois da estrada.
Ficou com o quarto mais caro, sem se preocupar se tinha dinheiro suficiente. O quarto tinha um cheiro sintético insuportável. Provavelmente o cheiro dos tapetes limpos e desinfectados. As paredes eram um tufo de veludo vermelho. As cadeiras eram de veludo vermelho. Tapetes de veludo vermelho. Todos os vermelhos, o vermelho. Não havia um vermelho menos vermelho do que outro vermelho ou mais vermelho do que o vermelho a seguir. O quarto era uma vingança de veludo vermelho. Fez de conta que estava em casa.
Ligou a TV. Um pregador pregava em língua gestual. Reparou que o gesto para «Jesus» consistia em bater alternadamente nas palmas de cada mão com o dedo do meio, o que fazia pensar nos cravos espetados, na crucificação. Desligou o som e observou atentamente as mãos do pregador. Teve a sensação de que havia linguagem saltando pelo quarto. («E nenhum dos seus ossos será partido.»)
Adormeceu no chuveiro, de pé. Sonhou com um homem que tinha conhecido em rapaz. Amarrado a um sicómoro. Queimado não se sabe porquê. A árvore ficou com uma incisão negra que acabou por fechar, mostrando no fim uma casca cor-de-rosa. Limpa como queixo de bebé. Quando acordou ainda via o homem. Pensou que lhe estava a cair chuva na cabeça. E o homem flutuava. E as cinzas do corpo do homem escorriam pelo seu rosto abaixo.
(«E nenhum dos seus ossos será partido.»)
2/79
Plains, Texas»
[Crónicas Americanas, ©Sam Shepard, Difel, pag. 40,41]
Encontrou um que se auto-anunciava como «Um Toque de Veludo – Quartos de Luxo». Achou que merecia um pouco de veludo. Sentir-se entre veludo era precisamente o que ansiava. Aquele veludo podia ser um refúgio depois da estrada.
Ficou com o quarto mais caro, sem se preocupar se tinha dinheiro suficiente. O quarto tinha um cheiro sintético insuportável. Provavelmente o cheiro dos tapetes limpos e desinfectados. As paredes eram um tufo de veludo vermelho. As cadeiras eram de veludo vermelho. Tapetes de veludo vermelho. Todos os vermelhos, o vermelho. Não havia um vermelho menos vermelho do que outro vermelho ou mais vermelho do que o vermelho a seguir. O quarto era uma vingança de veludo vermelho. Fez de conta que estava em casa.
Ligou a TV. Um pregador pregava em língua gestual. Reparou que o gesto para «Jesus» consistia em bater alternadamente nas palmas de cada mão com o dedo do meio, o que fazia pensar nos cravos espetados, na crucificação. Desligou o som e observou atentamente as mãos do pregador. Teve a sensação de que havia linguagem saltando pelo quarto. («E nenhum dos seus ossos será partido.»)
Adormeceu no chuveiro, de pé. Sonhou com um homem que tinha conhecido em rapaz. Amarrado a um sicómoro. Queimado não se sabe porquê. A árvore ficou com uma incisão negra que acabou por fechar, mostrando no fim uma casca cor-de-rosa. Limpa como queixo de bebé. Quando acordou ainda via o homem. Pensou que lhe estava a cair chuva na cabeça. E o homem flutuava. E as cinzas do corpo do homem escorriam pelo seu rosto abaixo.
(«E nenhum dos seus ossos será partido.»)
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Plains, Texas»
[Crónicas Americanas, ©Sam Shepard, Difel, pag. 40,41]
[Ruben P. Ferreira]
