Uma história por dia 14

«Uma vez, em San Bernardino, eu e o Tim Ford roubámos um carro. Um daqueles velhos Austin Healeys com estofos de cabedal vermelho e rodas com jantes raiadas. Estava ali mesmo à mão se semear com as chaves no sítio, nas traseiras de uma tenda de bebidas.
De início, pensámos apenas em dar uma curva com o carro, e deixá-lo, depois, no outro lado da cidade, mas, em vez disso, acabámos por rumar ao México. Tim lembrou-se de que precisávamos de um bilhete de identidade falso, para podermos beber nos bares e ir comprar cerveja nas lojas de bebidas, sem que nos chateassem. Disse que conhecia um tipo em Tijuana que alterava a data de nascimento na carta de condução e alterava-a tão bem que não se distinguia a falsa da verdadeira. E acrescentou que era barato.
Não me lembro de um carro cuja condução me divertisse tanto como o Austin Healey. Grunhia. Respondia como um animal a todas as manobras. Voava fosse qual fosse a mudança, mudanças de força, de velocidade, duplas – resistia a todas as provas. Dava curvas que nem uma pantera. Nada o podia deter.
Começámos a apropriar-nos das personalidades dos proprietários do Austin Healey. Desabotoámos as camisas para sentirmos o vento no peito. Experimentámos os óculos escuros que tínhamos encontrado no porta-luvas. (Tinham uma armação encarnada com pedras de imitação verdes nos cantos.) Metemo-nos com mulheres na estrada, aproximando-nos o suficiente dos seus carros, de tal forma que conseguíamos chegar aos manípulos das portas. Elas, claro, desatavam aos gritos.
Parámos num restaurante e escolhemos uma mesa junto à janela para podermos ver o carro. A grelha em forma de boca de gato fazia um vistão. Imaginámo-nos a disputar corridas por toda a Europa e já falávamos na gíria dos automóveis, usando expressões como «paragem nas boxes» ou «equipas de rali» para quem estivesse a ouvir. Gostávamos daquele Healey como se fôssemos os seus verdadeiros proprietários.
Passámos todo o dia em Tijuana, à espera do tipo dos bilhetes falsos, que tinha ficado de nos revelar as fotografias. Era um homem silencioso e taciturno, com uma camisola cinzenta cheia de nódoas. Andámos às voltas na cidade, passando pelo seu escritório de meia em meia hora. Finalmente apareceu a abrir-nos a porta. Cumprimentou-nos com um aperto de mão fugidio, como se fôssemos mendigos ou coisa semelhante. Tinha a impressão de que os bilhetes falsos eram a menos ilegal das suas operações. No entanto, a espera acabou por valer a pena. Os novos cartões eram impecáveis e passaram facilmente o teste de fronteira, quando os polícias nos pediram para os mostrarmos.
Bebemos que nem umas esponjas em San Diego, exibindo os nossos cartões novinhos em folha em todos os bares da cidade. Comprámos quatro garrafas de Ripple Wine para a viagem de regresso. Nem sequer parámos quando nos sentimos mal dispostos: vomitámos para o vento e ligámos o rádio.

11/9/80
San Francisco, Ca


Crónicas Americanas», ©Sam Shepard, Difel, pag. 45-47]
[Ruben P. Ferreira]

 

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