«O telefone acordou-o às 5.30 da manhã. Já era uma rotina. Atravessou o relvado entre o motel e a Kettle Pancake House. A encarregada do guarda-roupa corria atrás dele, na luz escura da manhã. Ela sentia-se bem sozinha. Bem se via pela maneira como corria. Nas filmagens nunca parecia tão feliz.
Deixou cair quinze cêntimos na lata vermelha e tirou um exemplar do. Viu de relance o sonoplasta e o treinador de cães, face a face The Austin American Statesman, debruçados sobre o café da manhã. Saudou-os quando entrou e foi para uma mesa ao fundo. Preferia tomar o pequeno-almoço sozinho. Só ele e o jornal. Pediu uma waffle simples e café. Quatro polícias discutiam rodeos ao balcão, por detrás dele. O jornal parecia referir-se exclusivamente a crimes menores. Desde Panhandle ao Golfo, muita gente estava a ser esfaqueada: à saída de bares, em terrenos baldios, em carros roubados, nas traseiras de farmácias. Acabou de comer a waffle em silêncio. Nos dentes, ficou-lhe um sabor a ovos em pó.
Atravessou o mesmo relvado para voltar ao motel. Há um mês que, todas as manhãs, fazia o mesmo caminho. A erva alta tocava-o como se fosse todo o Texas. A luz estava a mudar rapidamente.
Passou pela recepção para ver se tinha correio. O cacifo estava vazio. O gerente do motel, extasiado, via desenhos animados a cores. Lá fora, o motorista esperava-o. Passeando, de um lado para o outro.
Deslizou para o banco de trás de um Cadillac cinzento. Dois actores discutiam entusiasmados o teatro grego. E assim continuaram falando, quilómetros e quilómetros. Deixou-se ficar a olhar o chapéu preto de cowboy do motorista. Havia três palitos usados presos na fita do chapéu. Uma dessas fitas de chapéu de crina de cavalo entrançada, como as que os presos fazem.
Não percebia bem porquê, mas a estrada parecia-lhe extremamente perigosa. Estranhamente inclinada, como se fosse uma pista para avionetas. Nos campos, as casas dos agricultores pareciam deslocadas. Como se fossem suburbanas ou como se os seus proprietários desejassem que elas parecessem casas suburbanas. Coisas de nada sobre a relva. Uma família de veados brancos de cerâmica. Banheiras de pássaros com enormes bolas metálicas de Natal, verdes e vermelhas, a boiar. Pequenos símbolos domésticos desaguando subitamente num oceano de campo lavrado.
Os actores continuavam a tagarelar, pondo tons emocionais nas vozes, para mostrarem um ao outro que tinham convicções profundas. Por vezes, tinha a sensação de que, no fundo, procuravam convencer-se a si próprios do que um ao outro. O motorista não falava. Primeiro era vaqueiro, depois porque era carroceiro. Não tinha a mínima opinião sobre os Gregos, nem tão-pouco aspirava a tê-la. Agarrava com uma mão o volante, enquanto a outra descansava. Os seus olhos pareciam ter lavrado um milhão de hectares.
Chegaram por fim a Uhland. Vendedores de comes e bebes tinham-se espalhado por toda a cidade. Duzentos figurantes andavam por ali às voltas, aguardando que alguém lhes trouxesse comida. Ele procurou a sua roulotte e encontrou-a estacionada junto a uma pastagem. A roupa para as filmagens esperava-o. Era exactamente como a roupa que trazia vestida, como se fosse uma versão desvalorizada de si mesmo. Trocou de roupa e sentiu-se precisamente o mesmo. Nem mais nem menos: o mesmo. Talvez um pouco mais rígido. Talvez, também, mais limpo. Perguntou a si mesmo se teria de desempenhar o seu próprio papel. Se teria sido contratado para isso mesmo. Sentou-se à mesa de fórmica e pôs-se a olhar atentamente a estrada. Dois atrelados passaram com um cartaz que dizia CRUZADA DE HOBBS PARA FAZER REVIVER O MILAGRE, em letras vermelhas garrafais, pintadas dos dois lados. Perguntou a si mesmo quem seriam os motoristas, se acreditariam em Deus ou se, afinal, estavam apenas a trabalhar para outros que acreditavam em Deus.
Durante todo o dia, guiou a moto atrás do carro que transportava a câmara. Mantinha uma distância constante. Quando o carro acelerava, ele acelerava a Kawasaki. Nunca ficava desfocado. Aqui e ali, a terra parecia arrancar-lhe os cantos dos olhos. Largas faixas de luz irrompendo de alturas inacreditáveis, rasgando o horizonte, como nalgumas pinturas religiosas italianas. Procurou não se distrair. Concentrar-se no assunto da cena projectada. Como é que ela se integrava na continuidade. Ia matá-la, ele, que seguia agora na sua moto? Matar quem? A star? A personagem? A mulher? A personagem que ele desempenhava faria aquela viagem para matar a personagem que ela desempenhava? Não conseguia despegar os olhos da pesada chapa rugosa do pára-choques do carro das filmagens. Um assistente de realização apontou para um pequeno sinal electrónico de luz vermelha. Um pisca significava que o carro ia acelerar. Dois, que ia abrandar. Três era igual a paragem. Era deste sinal que ele não queria de forma nenhuma esquecer-se. O sinal dos três piscas. A distância entre o pneu da frente da motorizada e a chapa rugosa do pára-choques do carro era de apenas três metros e meio, à volta disso. A cerca de noventa e cinco quilómetros à hora, era indispensável não esquecer o significado dos três piscas vermelhos. Mas por que diabo queria ele matá-la? Até então, julgava que sabia, mas, subitamente, tudo aquilo lhe pareceu perfeitamente estúpido. Tratar-se-ia simplesmente de uma sequência do argumento ou seria que o personagem tinha mesmo razões para a matar? Tentou parecer grave e decidido, ao fitar a lente. Via os seus olhos reflectidos na lente. Sim, estava mesmo a representar. Desistiu de representar. Decidiu conduzir a motorizada, apenas, e pôr de lado a representação. De repente, começou a gostar da corrida. O realizador berrou-lhe de megafone em punho: «Estás com um ar de quem se está a divertir! Mostra-te grave e decidido! Tu vais matá-la!»
O operador de câmara mostrou um, dois, três dedos, em diferentes alturas. Mais um código. Este tinha a ver com lentes. Um dedo, igual a plano de conjunto. Dois, plano médio. Três, grande plano. Tentou não olhar para os dedos. Para ele, um dedo significava «razoavelmente descontraído», dois «relativamente tenso», três – «extremamente tenso». Que bom seria se não lhe tivessem explicado o significado dos dedos. Não o ajudava nada saber. Ele não mudava conforme as lentes que estavam a usar, conforme os dedos que lhe mostravam. Então, para quê explicar-lhe o significado daquilo? O que ele bem gostaria de saber, acima de tudo, era por que razão o seu personagem queria matar a personagem dela. Algo sobre Cristo, parecia. Isso estava no argumento, algures. Ela era Cristo ou ele pensava que ela era Cristo, por um motivo qualquer. Porque pensaria ela que ela era Cristo? Ele não era estúpido. O personagem não era estúpido. Porque ele pensaria isso dela? A certa altura, lembrou-se do Evangelho segundo São João, quando Cristo disse aos judeus: «A razão pela qual não compreendeis o meu pensamento.» A cento e trinta à hora, a Kawasaki estava quase a ultrapassar o carro. Toda a equipa lhe acenava furiosamente para que abrandasse. Não via ninguém. A estrada branca e mortal. Voltou a lembrar-se de Cristo. Daquilo que ele disse aos tipos que queriam que ele provasse os seus milagres em território inimigo: «Não chegou ainda a minha hora. Para vós, é diferente. Vós não sabeis quando é a vossa hora, porque não sabeis de onde vindes, nem para onde ides. Mas, eu sei. E este não é o dia da minha morte!»
A Kawasaki fez um pião. A carabina de borracha preta rebentou-se com toda a força no guiador e apanhou-o no pescoço. Reparou então no motorista do carro, que o observava. Longe dele, longe. Apatetado. O mais alto céu que jamais tinha visto. Sentindo-se muito, muito abaixo do Céu. A distância. A humidade da carne. Chapa partida. Gente longe, inapelavelmente longe. Nenhum som. A visão nítida do tempo suspenso. Depois, sons da terra, encadeados, isolados. O riso do grande melro rabudo. O peito negro-diamante da cotovia dos prados. Palpitando. Dançando entre os sulcos do arado. Carvalho vivo desfolhado.
Subitamente, viu-se a si mesmo. Como um relâmpago, reencontrou-se. Não havia mais dúvidas sobre quem era o personagem.
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Shiner, Texas»
Deixou cair quinze cêntimos na lata vermelha e tirou um exemplar do. Viu de relance o sonoplasta e o treinador de cães, face a face The Austin American Statesman, debruçados sobre o café da manhã. Saudou-os quando entrou e foi para uma mesa ao fundo. Preferia tomar o pequeno-almoço sozinho. Só ele e o jornal. Pediu uma waffle simples e café. Quatro polícias discutiam rodeos ao balcão, por detrás dele. O jornal parecia referir-se exclusivamente a crimes menores. Desde Panhandle ao Golfo, muita gente estava a ser esfaqueada: à saída de bares, em terrenos baldios, em carros roubados, nas traseiras de farmácias. Acabou de comer a waffle em silêncio. Nos dentes, ficou-lhe um sabor a ovos em pó.
Atravessou o mesmo relvado para voltar ao motel. Há um mês que, todas as manhãs, fazia o mesmo caminho. A erva alta tocava-o como se fosse todo o Texas. A luz estava a mudar rapidamente.
Passou pela recepção para ver se tinha correio. O cacifo estava vazio. O gerente do motel, extasiado, via desenhos animados a cores. Lá fora, o motorista esperava-o. Passeando, de um lado para o outro.
Deslizou para o banco de trás de um Cadillac cinzento. Dois actores discutiam entusiasmados o teatro grego. E assim continuaram falando, quilómetros e quilómetros. Deixou-se ficar a olhar o chapéu preto de cowboy do motorista. Havia três palitos usados presos na fita do chapéu. Uma dessas fitas de chapéu de crina de cavalo entrançada, como as que os presos fazem.
Não percebia bem porquê, mas a estrada parecia-lhe extremamente perigosa. Estranhamente inclinada, como se fosse uma pista para avionetas. Nos campos, as casas dos agricultores pareciam deslocadas. Como se fossem suburbanas ou como se os seus proprietários desejassem que elas parecessem casas suburbanas. Coisas de nada sobre a relva. Uma família de veados brancos de cerâmica. Banheiras de pássaros com enormes bolas metálicas de Natal, verdes e vermelhas, a boiar. Pequenos símbolos domésticos desaguando subitamente num oceano de campo lavrado.
Os actores continuavam a tagarelar, pondo tons emocionais nas vozes, para mostrarem um ao outro que tinham convicções profundas. Por vezes, tinha a sensação de que, no fundo, procuravam convencer-se a si próprios do que um ao outro. O motorista não falava. Primeiro era vaqueiro, depois porque era carroceiro. Não tinha a mínima opinião sobre os Gregos, nem tão-pouco aspirava a tê-la. Agarrava com uma mão o volante, enquanto a outra descansava. Os seus olhos pareciam ter lavrado um milhão de hectares.
Chegaram por fim a Uhland. Vendedores de comes e bebes tinham-se espalhado por toda a cidade. Duzentos figurantes andavam por ali às voltas, aguardando que alguém lhes trouxesse comida. Ele procurou a sua roulotte e encontrou-a estacionada junto a uma pastagem. A roupa para as filmagens esperava-o. Era exactamente como a roupa que trazia vestida, como se fosse uma versão desvalorizada de si mesmo. Trocou de roupa e sentiu-se precisamente o mesmo. Nem mais nem menos: o mesmo. Talvez um pouco mais rígido. Talvez, também, mais limpo. Perguntou a si mesmo se teria de desempenhar o seu próprio papel. Se teria sido contratado para isso mesmo. Sentou-se à mesa de fórmica e pôs-se a olhar atentamente a estrada. Dois atrelados passaram com um cartaz que dizia CRUZADA DE HOBBS PARA FAZER REVIVER O MILAGRE, em letras vermelhas garrafais, pintadas dos dois lados. Perguntou a si mesmo quem seriam os motoristas, se acreditariam em Deus ou se, afinal, estavam apenas a trabalhar para outros que acreditavam em Deus.
Durante todo o dia, guiou a moto atrás do carro que transportava a câmara. Mantinha uma distância constante. Quando o carro acelerava, ele acelerava a Kawasaki. Nunca ficava desfocado. Aqui e ali, a terra parecia arrancar-lhe os cantos dos olhos. Largas faixas de luz irrompendo de alturas inacreditáveis, rasgando o horizonte, como nalgumas pinturas religiosas italianas. Procurou não se distrair. Concentrar-se no assunto da cena projectada. Como é que ela se integrava na continuidade. Ia matá-la, ele, que seguia agora na sua moto? Matar quem? A star? A personagem? A mulher? A personagem que ele desempenhava faria aquela viagem para matar a personagem que ela desempenhava? Não conseguia despegar os olhos da pesada chapa rugosa do pára-choques do carro das filmagens. Um assistente de realização apontou para um pequeno sinal electrónico de luz vermelha. Um pisca significava que o carro ia acelerar. Dois, que ia abrandar. Três era igual a paragem. Era deste sinal que ele não queria de forma nenhuma esquecer-se. O sinal dos três piscas. A distância entre o pneu da frente da motorizada e a chapa rugosa do pára-choques do carro era de apenas três metros e meio, à volta disso. A cerca de noventa e cinco quilómetros à hora, era indispensável não esquecer o significado dos três piscas vermelhos. Mas por que diabo queria ele matá-la? Até então, julgava que sabia, mas, subitamente, tudo aquilo lhe pareceu perfeitamente estúpido. Tratar-se-ia simplesmente de uma sequência do argumento ou seria que o personagem tinha mesmo razões para a matar? Tentou parecer grave e decidido, ao fitar a lente. Via os seus olhos reflectidos na lente. Sim, estava mesmo a representar. Desistiu de representar. Decidiu conduzir a motorizada, apenas, e pôr de lado a representação. De repente, começou a gostar da corrida. O realizador berrou-lhe de megafone em punho: «Estás com um ar de quem se está a divertir! Mostra-te grave e decidido! Tu vais matá-la!»
O operador de câmara mostrou um, dois, três dedos, em diferentes alturas. Mais um código. Este tinha a ver com lentes. Um dedo, igual a plano de conjunto. Dois, plano médio. Três, grande plano. Tentou não olhar para os dedos. Para ele, um dedo significava «razoavelmente descontraído», dois «relativamente tenso», três – «extremamente tenso». Que bom seria se não lhe tivessem explicado o significado dos dedos. Não o ajudava nada saber. Ele não mudava conforme as lentes que estavam a usar, conforme os dedos que lhe mostravam. Então, para quê explicar-lhe o significado daquilo? O que ele bem gostaria de saber, acima de tudo, era por que razão o seu personagem queria matar a personagem dela. Algo sobre Cristo, parecia. Isso estava no argumento, algures. Ela era Cristo ou ele pensava que ela era Cristo, por um motivo qualquer. Porque pensaria ela que ela era Cristo? Ele não era estúpido. O personagem não era estúpido. Porque ele pensaria isso dela? A certa altura, lembrou-se do Evangelho segundo São João, quando Cristo disse aos judeus: «A razão pela qual não compreendeis o meu pensamento.» A cento e trinta à hora, a Kawasaki estava quase a ultrapassar o carro. Toda a equipa lhe acenava furiosamente para que abrandasse. Não via ninguém. A estrada branca e mortal. Voltou a lembrar-se de Cristo. Daquilo que ele disse aos tipos que queriam que ele provasse os seus milagres em território inimigo: «Não chegou ainda a minha hora. Para vós, é diferente. Vós não sabeis quando é a vossa hora, porque não sabeis de onde vindes, nem para onde ides. Mas, eu sei. E este não é o dia da minha morte!»
A Kawasaki fez um pião. A carabina de borracha preta rebentou-se com toda a força no guiador e apanhou-o no pescoço. Reparou então no motorista do carro, que o observava. Longe dele, longe. Apatetado. O mais alto céu que jamais tinha visto. Sentindo-se muito, muito abaixo do Céu. A distância. A humidade da carne. Chapa partida. Gente longe, inapelavelmente longe. Nenhum som. A visão nítida do tempo suspenso. Depois, sons da terra, encadeados, isolados. O riso do grande melro rabudo. O peito negro-diamante da cotovia dos prados. Palpitando. Dançando entre os sulcos do arado. Carvalho vivo desfolhado.
Subitamente, viu-se a si mesmo. Como um relâmpago, reencontrou-se. Não havia mais dúvidas sobre quem era o personagem.
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Shiner, Texas»
[Crónicas Americanas, ©Sam Shepard, Difel, pags. 11-16]
[Ruben P. Ferreira]
