«No comboio que eu tanto amo. O comboio a que põem um nome, e outro, e outro: primeiro, um nome que condiz com a região por onde passa; depois, mais tarde, um nome que não diz nada. Mas o comboio, esse, é sempre o mesmo, com ou sem nome. Este comboio acorda sempre em mim os mesmos sentimentos. Os mesmos desejos. Uma voracidade de partir o coração pela terra que se vê da janela. Vivia num comboio, se alguém me desse um.
Neste mesmo comboio, eis-me agora a jantar. Esquadrinhado o ambiente. Fingindo que leio a ementa. Uma rapariga loura género Tuesday Weld, talvez com quinze anos, descalça, lê um grosso livro verde e depenica com pouca convicção uma salada. Olha-me bem nos olhos e depois volta ao livro. Volta a olhar-me. Volta ao livro. Não consigo despegar os olhos dos seus pés. São os pés que me fazem pensar em Tuesday Weld, mais que o cabelo. São os pés que me fazem recordar um antigo programa de televisão, em que Tuesday Weld apareceu descalça e com uma saia comprida e o entrevistador (acho que era David Suskind) passou o tempo a deitá-la abaixo, por ter aparecido descalça no seu programa, e a repetir que se tratava de um sintoma concreto da sua imaturidade neurótica e necessidade de atenção. Nesse programa, apaixonei-me por Tuesday Weld. Achei que ela era o Marlon Brando em mulher.
A rapariga continua a olhar-me por cima do grosso livro verde e começo a sentir um aperto na garganta. Tem vestido um «cai-cai» azul, elástico, daqueles que com um toque caem logo e mostram tudo. Parece demorar demasiado a comer a salada.
Passo para a mesa dela e pergunto-lhe o que está a ler.
- A História do Suicídio na América, responde.
Ataco:
- Está a estudar o suicídio?
Que não, responde.
- Ah, digo eu.
Palavra puxa palavra e vamos para o seu compartimento. Tem só quinze anos, é o que eu penso. Eu tenho dezanove. Quinze e dezanove anos. Quer dizer: quando eu tinha quatro anos, ela não existia. Diz que é Mormon. Que o pai está à espera dela em Salt Lake. (Imagino o pai dela com um chapéu preto de abas largas, fato escuro, laço escuro, sentado numa carroça puxada por uma mula negra, segurando o chicote, à espera na estação dos caminhos-de-ferro. Gaivotas às voltas, vagarosas, por sobre a sa cabeça.)
Abre a cama desmontável. Parece-lhe uma brincadeira. A cama cai e ocupa todo o espaço. O comboio aos solavancos. O «cai-cai» cai ainda mais facilmente do que eu pensava. Ela diz-me que não pode «fazer» e é a primeira vez que ouço esta expressão, por isso pergunto, «fazer o quê?» «Fazemos» durante todo o trajecto, a partir de Winnemucca, ao longo do Grande Deserto de Salt Lake. É como atravessar o oceano à noite. Um comboio do mar. O sal brilha branco colado à janela. Ela diz que nunca mais conseguirá enfrentar o namorado. Quando o comboio chega a Salt Lake, observo-a descendo os degraus de metal, envolta numa nuvem de fumo. Ouço os seus pés descalços tocando o cascalho, mas ela já desapareceu. No ar há um cheiro metálico muito forte. Luzes da estação. Homens com bonés vermelhos empurram carros com bagagens. O fumo dispersa-se e uma rua aparece à distância. Sinto um desejo furioso de seguir por aquela rua. De abandonar pura e simplesmente o comboio e segui-la, mas ela desapareceu, tragada pela paisagem. «Tuesday!», grito lá para fora, para a noite de Salt Lake City. «Tuesday, não me deixes!» Regresso ao meu lugar. O comboio já se pôs em marcha. De repente, começo a ter um pressentimento muito profundo de que ela vai contar tudo ao pai. Imagino que em qualquer estação ele vai aparecer para se vingar. Portas que se arrombam. (Agora o paizinho dela tem afinal uma cara género Sterling Hayden e empunha uma espingarda de calibre doze. Fico aterrorizado. O comboio parará num qualquer remoto apeadeiro e o motorista entregar-me-á ao pai vingativo. Serei arrastado para o deserto e degolado. Serei mutilado qual Osíris e esta Ísis lourinha irá em busca dos meus bocados dispersos. Reconstituindo-me. Demorará anos e anos a encontrar todos os meus membros e, mesmo assim, os meus órgãos mais íntimos ter-lhe-ão escapado, levados pelo rio Colorado abaixo, até às profundezas do México. Ela seguirá o curso do rio, chorando o meu corpo disperso. Erguendo a minha cabeça degolada para a lua entoando um queixume enquanto vagueia. O som do seu lamento encherá o Grande Canyon.)
À uma e trinta da manhã saio em Missouri. Esperam-me em Chicago de manhã mas não aguento continuar viagem. Pelo menos, a pé, terei uma hipótese de escapar. Dou com uma cabina telefónica junto a um milheiral e ligo para Illinois. A avó atende. Não está nada contente por me ouvir. Não está nada contente por ter de pagar esta chamada. Não consegue entender onde é que estou ou porque lhe estou a telefonar. «Estou numa cabina telefónica junto a um campo de milho, em Missouri. Mesmo ao pé do Mississípi.» Não consegue entender. Há sete anos que não a vejo, nem lhe escrevo uma carta. «Vou até aí para a ver, chego amanhã. Como está o avô?» Pergunta-me se faço ideia das horas que são. «Certo, desculpe, avó, mas tinha de sair do comboio. Era a minha vida que estava em perigo.» Apanho um autocarro para Chicago e depois sigo à boleia para o campo. A quinta parece abondonada. Ao lado da casa, uma barraca com talos de milho secos, com corvos que o avô matou, pendurados pelo pescoço, presos com elásticos, balançando ligeiramente ao vento. A teoria do avô consiste em que eles funcionam como corvos-espantalhos para os corvos vivos. O avô está sentado exactamente como sempre se sentou - num buraco do seu sofá, embrulhado em mantas feitas em crochet, em frente da televisão. Está um esqueleto. Gosta dos anúncios da cerveja Hamm's. «A Terra das Águas Azuis-Celestes». O castorzinho do desenho animado que anda aos saltos no topo da cascata e canta a canção do anúncio. Ele acha que Truman foi o nosso maior presidente e escreve diatribes políticas aos jornais de Chicago, assinando-os «Um simples agricultor». Prediz «um negro na Casa Branca» em 1970. É um admirador entusiástico dos Chicago Cubs. Diz-me que eu nunca deveria ter abandonado o baseball. «Podias ter feito carreira nos Majors», diz ele. «Não é nada má vida. Ser pago para jogar à bola.» Fuma e bebe continuamente e cospe sangue num cinzeiro de cobre de pé alto, como os que ainda se vêem às vezes nas recepções de velhos hotéis. Por vezes tosse tão violentamente que todo o seu corpo se dobra e não consegue retomar a respiração durante muito, muito tempo. O seu mundo está circunscrito ao sofá. Tudo o que precisa está à sua volta, num raio de três pés. A televisão, só quando dá baseball. Quando o jogo acaba, a avó aparece e desliga-a. Fá-lo no momento exacto. Consegue dar pelo fim do jogo em qualquer divisão da casa. Tem um ouvido perfeito.
Quando já estão os dois a dormir, vagueio pelos quartos de cima, observando todas as fotografias dos meus tios. O tio que morreu num quarto de motel, na noite de núpcias. A mulher, que morreu com ele. O tio que perdeu uma perna aos dez anos. O tio que se meteu na Máfia de Chicago. O tio que era lenhador nas Grandes Florestas do Norte. O tio que foi para Bekins. O tio que criava Springer Spaniels. Todos os tios que têm as mesmas feições do avô.
Caí pesadamente na cama. «Quinze e dezanove», penso. «Quinze e dezanove.» O comboio assobia ao longe. Cigarras zumbem. Bem oiço os seus pés tocando o cascalho.
24/9/80
San Francisco, Ca.»
[Ruben P. Ferreira]
