«Sou um sonâmbulo, pelos vistos. Dão comigo de pé ao fundo do corredor, encostado ao papel de parede com desenhos de hibiliscos, resmungando para mim mesmo. Dizem-me que são palavras incompreensíveis e que me calo quando me abanam. Amparam-me pelos ombros, conduzem-me de volta à cama, adormeço e não volto a levantar-me o resto da noite. Quando, na manhã seguinte, me contam o que se passou, sinto-me invadido por um calor vibrante. Um frémito pela espinha acima. Rio-me descontroladamente, não páro de rir e o meu pai vira-se para mim e diz-me: «Não tem piada nenhuma.» Porém, ao dizer isto, sorri. Resultado, rio-me ainda mais descontroladamente.
Um dia, enquanto dormia, fui para a casa de banho e meti-me na banheira branca, que estava vazia. Deram comigo a dormir lá dentro, deitado de lado. A reacção dos meus pais, dessa vez, foi mais severa do que quando me tinham encontrado ao fundo do corredor. As suas vozes ganharam um tom de ligeira preocupação. Não sei por que motivo, acharam que uma pessoa meter-se na banheira a dormir era algo de uma bizarria excessiva. Talvez um tanto ou quanto louco. Apesar de, quando eu era muito mais miúdo, a minha mãe me ter posto a dormir em muitas banheiras dos quartos de motéis do estado de Idaho, porque a única cama que havia era demasiado estreita. Nessa altura, o meu pai estava na Força Aérea, a lançar bombas sobre a Itália.
Não percebo porque é que me fascinava tanto imaginar o que se passaria nessas deambulações nocturnas, mas a verdade é que, a partir de certa altura, comecei a ansiar pelas explicações matinais dos meus pais, sobre o que me teria acontecido e onde me teriam encontrado na noite anterior. Até onde tinha eu ido? Seria que, dessa vez, tinham dado comigo pregado ao tecto? Enroscado dentro da lareira? Não conseguia suportar o facto de estar, de facto, de fora, nesses encontros inconscientes, e, por isso, inventei um esquema soberbo: fingiria que estava a ter um acesso de sonambulismo. Manteria os olhos firmemente cerrados e tropeçaria talvez no corredor, indo de encontro às paredes, respirando profundamente e, provavelmente, resmungando um som qualquer para que eles me pudessem ouvir. Demorei horas a encher-me de coragem para por em prática este plano, porque sabia que, se falhasse, eles iam provavelmente pensar que, das outras vezes, tinha sido tudo a fingir, e a sua reacção, nesse caso, seria imprevisível.
Esperei até ter a certeza de que já estavam ambos deitados. Ouvia os seus risinhos, o que significava que provavelmente estavam nos preliminares. Deslizei da cama de olhos bem fechados e fui-me guiando até ao corredor – passei pelo tigre raivoso pintado em seda, que o meu pai tinha trazido das Filipinas; passei o retrato de um maquinista pintado pelo avô; passei as flores de hibisco cor-de-rosa, iluminadas pela luz da casa de banho. A meio do corredor, reparei que eles tinham deixado de rir. O meu coração estalava. Até sentia o cheiro do papel de parede. Ouvia-os a cochichar. Então era assim que tudo se passava! Em todas as outras noites, também devia ser assim, só que, desta vez, eu estava bem acordado. A situação parecia extremamente perigosa. O fingimento exigia convicção. Já não podia voltar atrás. Quase ao fim do corredor, tropecei pesadamente. Apertei os olhos bem apertados. Deixei os braços oscilar, desamparados, moles. Sentia que eles estavam a ver-me através da fresta da porta do quarto. O isco estava a dar resultado. A ilusão que eu tinha montado estava a ter sucesso! Então, subitamente, apercebi-me de que não havia mais corredor. A porta do quarto deles. Quando chegasse ao fim do corredor, para onde é que ia? Ficava ali, assim, de pé, a ressonar? Chegava à parede, dava meia-volta e metia-me a caminho do meu quarto, como se fosse um carrinho de corda? Deitava-me ali e punha-me a murmurar coisas sem sentido? Continuava a andar, sem sair do mesmo sítio, com o nariz comprimido contra o papel de parede? Num súbito rasgo de inspiração, lembrei-me do telefone. O grande telefone negro sobre uma mesinha redonda, ao fundo corredor. Às apalpadelas agarrei no auscultador. Propositadamente, encostei o microfone ao ouvido. Comecei então a sussurrar palavras desconexas para um ser imaginário do outro lado do fio. Não foi preciso mais. A brincadeira acabara. Saíram do quarto a correr, agarraram-me firmemente pelos ombros a abanaram-me. Arregalei os olhos, numa exibição categórica de choque e estupefacção, mas não deu resultado. Levaram-me pelo corredor fora e empurraram-me para a cama. «Agora deixa-te ficar na cama!», foi o que disseram. «Não saias da cama outra vez. Não tem graça nenhuma!» Ter graça era a última coisa que me interessava. Não os queria fazer rir. Era só pela emoção de ter com eles uma relação fora do normal. Um contacto diferente. Agora, tudo murchara. Excepto um silêncio humilhante que pairava na escuridão.
Fecharam a porta do quarto deles e nem sequer conseguia ouvi-los. A minha irmã pequena andava às voltas no beliche por cima de mim. Sussurrava qualquer coisa enquanto dormia. Disse-lhe qualquer coisa, mas ela não respondeu. O vizinho do lado ligou o seu sistema de rega. Bem o ouvia, cantando para as rosas.
13/10/80
L.A., Ca.»
Um dia, enquanto dormia, fui para a casa de banho e meti-me na banheira branca, que estava vazia. Deram comigo a dormir lá dentro, deitado de lado. A reacção dos meus pais, dessa vez, foi mais severa do que quando me tinham encontrado ao fundo do corredor. As suas vozes ganharam um tom de ligeira preocupação. Não sei por que motivo, acharam que uma pessoa meter-se na banheira a dormir era algo de uma bizarria excessiva. Talvez um tanto ou quanto louco. Apesar de, quando eu era muito mais miúdo, a minha mãe me ter posto a dormir em muitas banheiras dos quartos de motéis do estado de Idaho, porque a única cama que havia era demasiado estreita. Nessa altura, o meu pai estava na Força Aérea, a lançar bombas sobre a Itália.
Não percebo porque é que me fascinava tanto imaginar o que se passaria nessas deambulações nocturnas, mas a verdade é que, a partir de certa altura, comecei a ansiar pelas explicações matinais dos meus pais, sobre o que me teria acontecido e onde me teriam encontrado na noite anterior. Até onde tinha eu ido? Seria que, dessa vez, tinham dado comigo pregado ao tecto? Enroscado dentro da lareira? Não conseguia suportar o facto de estar, de facto, de fora, nesses encontros inconscientes, e, por isso, inventei um esquema soberbo: fingiria que estava a ter um acesso de sonambulismo. Manteria os olhos firmemente cerrados e tropeçaria talvez no corredor, indo de encontro às paredes, respirando profundamente e, provavelmente, resmungando um som qualquer para que eles me pudessem ouvir. Demorei horas a encher-me de coragem para por em prática este plano, porque sabia que, se falhasse, eles iam provavelmente pensar que, das outras vezes, tinha sido tudo a fingir, e a sua reacção, nesse caso, seria imprevisível.
Esperei até ter a certeza de que já estavam ambos deitados. Ouvia os seus risinhos, o que significava que provavelmente estavam nos preliminares. Deslizei da cama de olhos bem fechados e fui-me guiando até ao corredor – passei pelo tigre raivoso pintado em seda, que o meu pai tinha trazido das Filipinas; passei o retrato de um maquinista pintado pelo avô; passei as flores de hibisco cor-de-rosa, iluminadas pela luz da casa de banho. A meio do corredor, reparei que eles tinham deixado de rir. O meu coração estalava. Até sentia o cheiro do papel de parede. Ouvia-os a cochichar. Então era assim que tudo se passava! Em todas as outras noites, também devia ser assim, só que, desta vez, eu estava bem acordado. A situação parecia extremamente perigosa. O fingimento exigia convicção. Já não podia voltar atrás. Quase ao fim do corredor, tropecei pesadamente. Apertei os olhos bem apertados. Deixei os braços oscilar, desamparados, moles. Sentia que eles estavam a ver-me através da fresta da porta do quarto. O isco estava a dar resultado. A ilusão que eu tinha montado estava a ter sucesso! Então, subitamente, apercebi-me de que não havia mais corredor. A porta do quarto deles. Quando chegasse ao fim do corredor, para onde é que ia? Ficava ali, assim, de pé, a ressonar? Chegava à parede, dava meia-volta e metia-me a caminho do meu quarto, como se fosse um carrinho de corda? Deitava-me ali e punha-me a murmurar coisas sem sentido? Continuava a andar, sem sair do mesmo sítio, com o nariz comprimido contra o papel de parede? Num súbito rasgo de inspiração, lembrei-me do telefone. O grande telefone negro sobre uma mesinha redonda, ao fundo corredor. Às apalpadelas agarrei no auscultador. Propositadamente, encostei o microfone ao ouvido. Comecei então a sussurrar palavras desconexas para um ser imaginário do outro lado do fio. Não foi preciso mais. A brincadeira acabara. Saíram do quarto a correr, agarraram-me firmemente pelos ombros a abanaram-me. Arregalei os olhos, numa exibição categórica de choque e estupefacção, mas não deu resultado. Levaram-me pelo corredor fora e empurraram-me para a cama. «Agora deixa-te ficar na cama!», foi o que disseram. «Não saias da cama outra vez. Não tem graça nenhuma!» Ter graça era a última coisa que me interessava. Não os queria fazer rir. Era só pela emoção de ter com eles uma relação fora do normal. Um contacto diferente. Agora, tudo murchara. Excepto um silêncio humilhante que pairava na escuridão.
Fecharam a porta do quarto deles e nem sequer conseguia ouvi-los. A minha irmã pequena andava às voltas no beliche por cima de mim. Sussurrava qualquer coisa enquanto dormia. Disse-lhe qualquer coisa, mas ela não respondeu. O vizinho do lado ligou o seu sistema de rega. Bem o ouvia, cantando para as rosas.
13/10/80
L.A., Ca.»
[Ruben P. Ferreira]
