«A primeira vez que fugi à escola tinha dez anos. Alinhei com dois tipos mais velhos. Eram irmãos e já tinham comparecido cinco vezes no Tribunal de Menores. Disseram-me que era exactamente como tirar umas férias curtas. E fui com eles. Roubámos três bicicletas num quintal e rumámos ao Arroyo Seco. A bicicleta que eu tinha roubado era demasiado grande para mim, por isso nunca conseguia sentar-me no selim. Pedalava de pé.
Escondemos as bicicletas num eucaliptal à beira do Arroyo e descemos até à água. Apanhámos camarões de água doce com engodo de alteia, descascámo-los e utilizámos a sua carne para apanhar mais camarões. Quando chegámos à hora de almoço, partilhei a minha comida com os irmãos, porque eles se tinham esquecido de trazer a sua. Espalhei o conteúdo do saco de papel em cima de uma grande rocha lisa. Uma cenoura embrulhada num papel encerado, com um elástico à volta. Uma sandes de rolo de carne. Uma tablete M & M’s derretida. Comeram M & M’s primeiro. Desfizeram a embalagem e lamberam o chocolate. Ofereceram-me uma lambedela mas recusei. Também não comi a sandes de rolo de carne. Sempre detestei rolo de carne. Ainda por cima frio e no meio do pão.
O resto da tarde, andámos por montes e vales, à procura de cobras, até que um deles teve a ideia de descermos as nossas bicicletas até ao aqueduto e seguirmos então pela conduta seca, até chegarmos a Los Angeles. Dizia que «sim» a tudo, embora suspeitasse que L. A. ficava, pelo menos, a cem milhas de distância. A única vez que tinha estado em Los Angeles fora quando a minha tia me tinha levado à feira, no seu Dodge de 1945, para ver estorninhos. Devia ter seis anos.
Trepei pela vedação enquanto os dois irmãos desligavam a corrente das pontas do arame farpado. Logo que galguei a cerca, pus um pé na parede de cimento do aqueduto e atirei-me de uma altura de dez a doze pés, até ao fundo. Os irmãos, depois, fizeram descer as bicicletas com os seus cintos. Viajámos quilómetros e quilómetros por esse gigantesco corredor de cimento. As nossas bicicletas davam saltos quando passavam sobre as costuras castanhas de cimento que vedavam as juntas. Tirando isso, nunca tinha andado de bicicleta numa superfície tão lisa e macia.
Passámos por cápsulas vermelhas de cartuchos de espingarda, amarelecidas pelo sol, sarigueias mortas, latas de cerveja, casca de noz, vagens de alfarroba, um coati com duas crias, páginas de revistas pornográficas, bocados de corda, câmaras de ar, tampões de automóveis, caricas, folhas secas de salva, tábuas com pregos, cepos, raízes, vidros esmigalhados, bolas de golfe amarelas às riscas, um alicate, roupa interior de senhora, sapatos de ténis, peúgas esturricadas, um cão morto, ratos, libelinhas às voltas no ar, rãs encolhidas com os olhos dilatados. Andámos muito, até que chegámos a uma parte toda tapada, como uma grande e longo túnel. Não víamos luz nenhuma do outro lado. Descemos das bicicletas e espreitámos pela boca desse túnel. Não havia dúvida que eles estavam tão aflitos como eu, apesar de serem mais velhos. Já estava a escurecer e a perspectiva de ficarmos ali encurralados, de noite, sem sabermos se aquela coisa era muito ou pouco comprida, ou a que sítio iríamos ter, ou como é que voltaríamos para trás quando chegássemos ao fim, fez-nos desejar, aos três, o regresso a casa. Nenhum de nós o disse, mas eu bem sentia como esse desejo nos percorria aos três.
Não me lembro como é que a decisão foi tomada, mas a verdade é que, de repente, nos vimos metidos naquele túnel ou lá o que era. O chão era côncavo e escorregadio por causa dos limos, o que fazia com que as rodas derrapassem. Por vezes enterrávamos os pés, até aos tornozelos, no lodo e na lama negra. Acabámos por ter de arrastar as bicicletas em quase todo o caminho. Dizíamos coisas sem nexo uns aos outros, para sabermos onde estávamos, à medida que, atrás de nós, a luz desaparecia. Começámos a brincar aos sustos, tentando meter medo uns aos outros com gritos fantasmagóricos, mas depressa desistimos porque os ecos eram realmente aterrorizadores. Tinha a todo o momento visões de Los Angeles, imaginando-a, subitamente, no fim do túnel. Apareceria mesmo à nossa frente, de repente, resplandecente de luz, movimento, vida. Ou então surgiria como eu a tinha visto nos postais. (Palmeiras contra um fundo de montanhas nevadas, com laranjais espraiando-se aos seus pés. A estação do caminho-de-ferro com um burro em frente, arreado a uma carroça.) Mas não aparecia. Horas e horas sem aparecer. E os meus pés todos enlameados. E já nem me lembrava da cara dos dois irmãos. Um tropel de terríveis pensamentos sobre o regresso a casa enchia-me a cabeça. Que aconteceria quando, finalmente, regressasse. Na escuridão, invoquei a nossa casa. O telhado vermelho. O portão da garagem. A faixa de relva entre as faixas de rodagem. As bagas Pyracantha. Os piscos que as comiam. Grandes planos de bico do pisco depenicando, sôfrego, bagas vermelhas. Via, claramente via, torrões de terra esboroada no meio da erva húmida, onde ele tinha estado a caçar minhocas. Não conseguia deter estas miragens. (Quando eu ia para a escola. O velho e anafado guarda, à esquina, com a placa redonda de madeira com o sinal STOP em letras vermelhas. O recreio da terra. Fontes de loiça com bicos de prata de onde saíam jogos de água. A cara do miúdo a quem esmurrei no estômago por motivo nenhum. Pequenos fios de maionese à volta dos seus lábios.) Sentia que estas aparições iam afogar-me. Interrogava-me sobre o que os dois irmãos estariam a pensar, mas nunca lhes perguntei.
Era já noite quando chegámos ao fim do túnel, mas, para cúmulo do azar, não era Los Angeles. Sicómoros enormes com umas luzes alaranjadas, difusas, pairavam sobre as nossas cabeças. Ouvia-se o barulho dos carros numa auto-estrada. Camiões rodando de vez em quando. Arrastámo-nos dali para fora, subindo aos ombros uns dos outros e enganchando os cintos ao cume da barreira. O irmão mais velho disse que reconhecia a cidade onde estávamos. Que era Sierra Madre e que tinha um tio que vivia muito perto dali. Pedalámos até à casa do tio. Não falámos durante o caminho. Não havia nada para dizer.
O tio vivia numa casa pequena, com três quartos. Havia muitos homens sentados na sala de estar, a beber cerveja e a ver o Lone Ranger na TV. Ninguém parecia surpreendido com a nossa chegada. Era como se já tivesse acontecido muitas vezes antes. Uma mulher que estava a fazer um grande tacho de esparguete na cozinha, deu-nos pratos de papel e disse-nos que esperássemos um bocado, até que o molho da carne aquecesse. Fomos para a sala de estar, sentámo-nos no chão, aos pés dos homens, e ficámos a ver o Lone Ranger, enquanto comíamos o esparguete. Era a primeira vez que via TV porque não tínhamos nenhuma em casa (o meu pai dizia que não precisávamos). Adorei o Lone Ranger. Especialmente a música, quando ele galopava no Silver e se erguia, saudando com o chapéu uma mulher com um bebé ao colo.
Acabámos por ser apanhados mais tarde, nessa noite, por um carro-patrulha, numa ponte em South Pasadena. Os polícias trataram-nos como se fôssemos adultos. Num tom sério, perguntavam: «Onde é que arranjaram estas bicicletas? Como é que se chamam? Onde é que vivem? Sabem que horas são?» Coisas desse género. Avisaram por rádio os nossos pais e confiscaram-nos as bicicletas. A minha mãe apareceu então e levou-me de volta. Explicou-me que o meu pai estava tão furioso que não me tinha vindo buscar com medo de me desfazer. Disse e repetiu: «Agora tens cadastro na polícia. Vais ficar com isso para toda a vida.»
O meu pai bateu-me três vezes com o cinto, do lado da fivela. Três vezes. Precisamente três vezes. Depois foi para a rua. Nunca abriu a boca para dizer fosse o que fosse.
Deixei-me ficar na cama, escutando os movimentos da minha mãe, que passava a ferro na cozinha. Imaginei a cena – ela a passar a ferro. O assobio do vapor. O borrifador que ela usava para humedecer as camisas do meu pai. Imaginei o seu olhar concentrando-se na camisa, enquanto o seu braço andava para a frente e para trás, num ritmo firme.
13/8/80
Homestead Valley, Ca.»
Escondemos as bicicletas num eucaliptal à beira do Arroyo e descemos até à água. Apanhámos camarões de água doce com engodo de alteia, descascámo-los e utilizámos a sua carne para apanhar mais camarões. Quando chegámos à hora de almoço, partilhei a minha comida com os irmãos, porque eles se tinham esquecido de trazer a sua. Espalhei o conteúdo do saco de papel em cima de uma grande rocha lisa. Uma cenoura embrulhada num papel encerado, com um elástico à volta. Uma sandes de rolo de carne. Uma tablete M & M’s derretida. Comeram M & M’s primeiro. Desfizeram a embalagem e lamberam o chocolate. Ofereceram-me uma lambedela mas recusei. Também não comi a sandes de rolo de carne. Sempre detestei rolo de carne. Ainda por cima frio e no meio do pão.
O resto da tarde, andámos por montes e vales, à procura de cobras, até que um deles teve a ideia de descermos as nossas bicicletas até ao aqueduto e seguirmos então pela conduta seca, até chegarmos a Los Angeles. Dizia que «sim» a tudo, embora suspeitasse que L. A. ficava, pelo menos, a cem milhas de distância. A única vez que tinha estado em Los Angeles fora quando a minha tia me tinha levado à feira, no seu Dodge de 1945, para ver estorninhos. Devia ter seis anos.
Trepei pela vedação enquanto os dois irmãos desligavam a corrente das pontas do arame farpado. Logo que galguei a cerca, pus um pé na parede de cimento do aqueduto e atirei-me de uma altura de dez a doze pés, até ao fundo. Os irmãos, depois, fizeram descer as bicicletas com os seus cintos. Viajámos quilómetros e quilómetros por esse gigantesco corredor de cimento. As nossas bicicletas davam saltos quando passavam sobre as costuras castanhas de cimento que vedavam as juntas. Tirando isso, nunca tinha andado de bicicleta numa superfície tão lisa e macia.
Passámos por cápsulas vermelhas de cartuchos de espingarda, amarelecidas pelo sol, sarigueias mortas, latas de cerveja, casca de noz, vagens de alfarroba, um coati com duas crias, páginas de revistas pornográficas, bocados de corda, câmaras de ar, tampões de automóveis, caricas, folhas secas de salva, tábuas com pregos, cepos, raízes, vidros esmigalhados, bolas de golfe amarelas às riscas, um alicate, roupa interior de senhora, sapatos de ténis, peúgas esturricadas, um cão morto, ratos, libelinhas às voltas no ar, rãs encolhidas com os olhos dilatados. Andámos muito, até que chegámos a uma parte toda tapada, como uma grande e longo túnel. Não víamos luz nenhuma do outro lado. Descemos das bicicletas e espreitámos pela boca desse túnel. Não havia dúvida que eles estavam tão aflitos como eu, apesar de serem mais velhos. Já estava a escurecer e a perspectiva de ficarmos ali encurralados, de noite, sem sabermos se aquela coisa era muito ou pouco comprida, ou a que sítio iríamos ter, ou como é que voltaríamos para trás quando chegássemos ao fim, fez-nos desejar, aos três, o regresso a casa. Nenhum de nós o disse, mas eu bem sentia como esse desejo nos percorria aos três.
Não me lembro como é que a decisão foi tomada, mas a verdade é que, de repente, nos vimos metidos naquele túnel ou lá o que era. O chão era côncavo e escorregadio por causa dos limos, o que fazia com que as rodas derrapassem. Por vezes enterrávamos os pés, até aos tornozelos, no lodo e na lama negra. Acabámos por ter de arrastar as bicicletas em quase todo o caminho. Dizíamos coisas sem nexo uns aos outros, para sabermos onde estávamos, à medida que, atrás de nós, a luz desaparecia. Começámos a brincar aos sustos, tentando meter medo uns aos outros com gritos fantasmagóricos, mas depressa desistimos porque os ecos eram realmente aterrorizadores. Tinha a todo o momento visões de Los Angeles, imaginando-a, subitamente, no fim do túnel. Apareceria mesmo à nossa frente, de repente, resplandecente de luz, movimento, vida. Ou então surgiria como eu a tinha visto nos postais. (Palmeiras contra um fundo de montanhas nevadas, com laranjais espraiando-se aos seus pés. A estação do caminho-de-ferro com um burro em frente, arreado a uma carroça.) Mas não aparecia. Horas e horas sem aparecer. E os meus pés todos enlameados. E já nem me lembrava da cara dos dois irmãos. Um tropel de terríveis pensamentos sobre o regresso a casa enchia-me a cabeça. Que aconteceria quando, finalmente, regressasse. Na escuridão, invoquei a nossa casa. O telhado vermelho. O portão da garagem. A faixa de relva entre as faixas de rodagem. As bagas Pyracantha. Os piscos que as comiam. Grandes planos de bico do pisco depenicando, sôfrego, bagas vermelhas. Via, claramente via, torrões de terra esboroada no meio da erva húmida, onde ele tinha estado a caçar minhocas. Não conseguia deter estas miragens. (Quando eu ia para a escola. O velho e anafado guarda, à esquina, com a placa redonda de madeira com o sinal STOP em letras vermelhas. O recreio da terra. Fontes de loiça com bicos de prata de onde saíam jogos de água. A cara do miúdo a quem esmurrei no estômago por motivo nenhum. Pequenos fios de maionese à volta dos seus lábios.) Sentia que estas aparições iam afogar-me. Interrogava-me sobre o que os dois irmãos estariam a pensar, mas nunca lhes perguntei.
Era já noite quando chegámos ao fim do túnel, mas, para cúmulo do azar, não era Los Angeles. Sicómoros enormes com umas luzes alaranjadas, difusas, pairavam sobre as nossas cabeças. Ouvia-se o barulho dos carros numa auto-estrada. Camiões rodando de vez em quando. Arrastámo-nos dali para fora, subindo aos ombros uns dos outros e enganchando os cintos ao cume da barreira. O irmão mais velho disse que reconhecia a cidade onde estávamos. Que era Sierra Madre e que tinha um tio que vivia muito perto dali. Pedalámos até à casa do tio. Não falámos durante o caminho. Não havia nada para dizer.
O tio vivia numa casa pequena, com três quartos. Havia muitos homens sentados na sala de estar, a beber cerveja e a ver o Lone Ranger na TV. Ninguém parecia surpreendido com a nossa chegada. Era como se já tivesse acontecido muitas vezes antes. Uma mulher que estava a fazer um grande tacho de esparguete na cozinha, deu-nos pratos de papel e disse-nos que esperássemos um bocado, até que o molho da carne aquecesse. Fomos para a sala de estar, sentámo-nos no chão, aos pés dos homens, e ficámos a ver o Lone Ranger, enquanto comíamos o esparguete. Era a primeira vez que via TV porque não tínhamos nenhuma em casa (o meu pai dizia que não precisávamos). Adorei o Lone Ranger. Especialmente a música, quando ele galopava no Silver e se erguia, saudando com o chapéu uma mulher com um bebé ao colo.
Acabámos por ser apanhados mais tarde, nessa noite, por um carro-patrulha, numa ponte em South Pasadena. Os polícias trataram-nos como se fôssemos adultos. Num tom sério, perguntavam: «Onde é que arranjaram estas bicicletas? Como é que se chamam? Onde é que vivem? Sabem que horas são?» Coisas desse género. Avisaram por rádio os nossos pais e confiscaram-nos as bicicletas. A minha mãe apareceu então e levou-me de volta. Explicou-me que o meu pai estava tão furioso que não me tinha vindo buscar com medo de me desfazer. Disse e repetiu: «Agora tens cadastro na polícia. Vais ficar com isso para toda a vida.»
O meu pai bateu-me três vezes com o cinto, do lado da fivela. Três vezes. Precisamente três vezes. Depois foi para a rua. Nunca abriu a boca para dizer fosse o que fosse.
Deixei-me ficar na cama, escutando os movimentos da minha mãe, que passava a ferro na cozinha. Imaginei a cena – ela a passar a ferro. O assobio do vapor. O borrifador que ela usava para humedecer as camisas do meu pai. Imaginei o seu olhar concentrando-se na camisa, enquanto o seu braço andava para a frente e para trás, num ritmo firme.
13/8/80
Homestead Valley, Ca.»
[Crónicas Americanas, ©Sam Shepard, Difel, pag. 32-37]
[Ruben P. Ferreira]
