«As Minas de Salomão foi o filme que mais me obcecou quando era miúdo. Desde então nunca mais voltei a ver esse filme, mas as suas imagens mantêm-se vivas em mim. Guerreiros Watusi com estrias de argila vermelha sobre o nariz. Vergões negros em relevo salpicando o peito. Dentes limados, aguçados que nem agulhas. Leões dilacerando um braço. Moscas aterrando nos lábios e os lábios sem se mexerem. Archotes ardendo em cavernas. Pedras preciosas azuis com caveiras à volta. Aquele actor inglês meio morto de medo.
Dentro do Teatro Rialto, em pleno dia, estava tudo às escuras e havia no ar um cheiro almiscarado. Integrei-me tão profundamente no mundo do filme que o teatro se transformou numa parte da sua paisagem. A corrida para ir comprar pipocas pela coxia escura, com o ribombar da banda sonora e a miudagem aos gritos nos lugares, tudo isso fazia parte do enredo. No balcão das guloseimas, eu estava, afinal, na gruta do Rei Salomão. As «Ju-Ju-Bees» eram pedras preciosas. Os arrumadores, árvores da selva. Leopardos erravam pela casa de banho.
Muitos dias depois ainda eu respirava a poeira africana numa cidade de gente genuinamente branca.
Dentro do Teatro Rialto, em pleno dia, estava tudo às escuras e havia no ar um cheiro almiscarado. Integrei-me tão profundamente no mundo do filme que o teatro se transformou numa parte da sua paisagem. A corrida para ir comprar pipocas pela coxia escura, com o ribombar da banda sonora e a miudagem aos gritos nos lugares, tudo isso fazia parte do enredo. No balcão das guloseimas, eu estava, afinal, na gruta do Rei Salomão. As «Ju-Ju-Bees» eram pedras preciosas. Os arrumadores, árvores da selva. Leopardos erravam pela casa de banho.
Muitos dias depois ainda eu respirava a poeira africana numa cidade de gente genuinamente branca.
1/9/80
Homestead Valley, Ca.»
[Ruben P. Ferreira]
