«Acordar» - Poema inédito

«Onde esperar o Sol
para o saudar primeiro?
Só muros e persianas,
passos apressados, vozes,
um tombo o elevador.
É uma toca o quarto,
não tem ruas e é um mundo
- no roupeiro o espelho
onde o espera muda
e entristecida uma velha.

Um sangue de impaciência
cansa-a, empurra-a
- são de chumbo os pés,
às costas leva uma rocha.
Fora desse recinto
uma multidão a caminho
rumo a outro dia
observa-se, perde-se.
O semáforo vermelho
cede ao verde e ao laranja.

Na prateleira de mármore
na moldura oval
um perfil de mulher
(o cabelo cortado
pouco acima da orelha,
a camisa aos quadrados)
olha a porta entreaberta;
a pequena orquestra de cupidos
afina uma canção
melancólica, muda.

A ronda dos segundos
no relógio amarelo
avança tremulando;
o tempo é um fluxo cego
de números e estações
e recua avançando.
Um jardim volta
cheiroso de hortelã
sempre em Maio
ao sopé da colina.

Passam pelo jardim
- por entre as sebes de buxo -
os que viu saírem
do percurso dos dias.
Também a sua dor,
sombria, sem abrigo,
se rendeu ao sono,
reaproximou a espera.
Só o depois apaga
depois deste ficar.

Nas artérias entupidas,
nos pulos do coração
ficam os desejos
da infância intocada.
Sob céus a caminho
o pacto se reata,
a promessa ressurge,
e ainda o desânimo,
ainda o medo:
um estranho baloiço.

São longas as noites,
ofegante o acordar:
de cada vez a porta
que empurra é mais pesada.
Só muros e persianas,
passos apressados, vozes,
um tombo o elevador,
uma toca o quarto.
Onde esperar o Sol
para o saudar primeiro?»

Poemas Escolhidos», Elio Pecora (2008), Biblioteca «Barco Ébrio», Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, pag. 100-102]

[Ruben P. Ferreira]

 

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