«Coisas» da vida

Inevitabilidades da vida impedem-me de actualizar a série «Uma história por dia» até meados desta semana. Depois, o ritmo retomará o seu curso anterior. Aproveito, entretanto, para contar uma «história», que se repete com milhares de pessoas em todo o país. Estive quatro (quatro) horas à espera num Centro de Saúde para me passarem um papel. Quatro horas em que ouvi e vi de tudo um pouco, desde o miúdo a sangrar da boca que entrou por ali adentro com um pai nervoso, «placado» por um segurança que o queria obrigar a preencher os impressos enquanto segurava o queixo descaído do filho, até à mãe que aguarda com paciência que a sua vez chegue, passando pelas beatas que discutem com detalhe quem chega e em que estado, até ao casal de idade mais avançada mas ainda com genica que discute saudavelmente as doenças, os preparos da vida com que foram brindados, interagindo com a mesma energia e compreensão de há trinta anos, sem esquecer também a adolescente beta com a mãe loira oxigenada que não quer esperar na sala porque, enfim, tem pessoas, sendo carinhosamente encaminhada para a rua de modo a passear as perninhas até chegar a sua vez de ser atendida, isto com a mamãe sempre ao seu lado.
Ora, há 30 (trinta) anos que, como outros, passo por corredores de Centros de Saúde e Hospitais, com os mais diversos objectivos, a tratar o que toda a gente trata, a saudinha, e há trinta (trinta) anos que acontece sempre a mesma coisa: espera-se. Espera-se o tempo que for preciso, que é sempre em demasia. Ao fim de trinta (trinta) anos, podem contabilizar-se horas, que significam dias, meses e semanas de espera. Bem, a não ser uma vez em que recordo com particular fascínio, estava eu tão farto de saber que iria esperar que, digamos, entrei pelas Urgências do Hospital com a expressão mais cândida e tranquila que pude, e disse à senhora do guichet, com a voz mais cordial que consegui simular, que temia ter estado em contacto com uma tuberculosa. Fui atendido um minuto e quarenta e sete segundos depois, para mim, um tempo recorde.
Voltando à «vaca fria» (que também é uma expressão bonita), perdoem-me a redundância, mas depois de meses (e anos) de espera, o que é que se pode concluir? Se isto não demonstra falta de eficiênca, ingerêcia generalizada, desrespeito pelas pessoas, incompetência do mais alto ao mais baixo escalão das hierarquias, não sei o que poderá demonstrar. O SNS sempre esteve «doente». Diz quem pode que quem não quer esperar ruma ao privado e despacha-se (nem sempre é assim, mas pelo menos os «maples» são mais confortáveis, aliás, existem). São os mesmos que dizem que está tudo bem, melhor do que nunca, que a rapidez de atendimento dos serviços é agora a «prova dos nove» da sua eficiência. Estes são os mesmos que são atendidos no serviços hospitalares privados e públicos com uma rapidez perturbante, porque, sendo pessoas com responsabilidades, têm pouco tempo para perder nos seviços públicos e privados do país.
Há trinta (trinta) anos que a mesma atitude de descaso, irresponsabilidade e desfaçatez para com o cidadão comum, concretamente, a mesma incompetência, se mantêm. É a estupidez no seu melhor nível de apresentação. É estupidez demonstrada em sessões requintadas de «power point», como simbologia de uma modernidade pretendida, mas distante. Falta «calo», respeito e decência. Falta uma classe médica que se insurja contra o descrédito. Por vezes também rumo ao privado, mas são poucas. Se o fizesse com a frequência que o SNS 'aconselha', talvez tivesse de empenhar as finanças privadas para toda a vida. Assim, e aqui tenho de discordar do MEC, afirmo que nem tudo funciona no que à Saúde diz respeito. Atrevo-me a dizer que pouca coisa funciona e que há sempre muita gente a fazer «o jeito». Quem não tem quem lhe faça «o jeito», espera, e nisso assemelha-se a uns quantos milhões que pululam pelas salas dos Centros de Saúde e dos Hospitais portugueses.

 

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