Uma história por dia 32

«Nesta terra, há três pessoas que há já muito tempo tentam fazer passar as suas mortes para outras pessoas. Duas mulheres com batas de enfermeiras. Um homem com um smoking azul. Conheço-os apesar de apenas os ter visto ao longe. E sempre à noite. Sempre os três juntos, em monte, frenéticos, nas esquinas, empurrando uma velha cadeira de verga uns para os outros- Cochichando argumentos. Procurando esconder as caras. Em pezinhos de lã, dão voltinhas pelas redondezas. Conhecço-os, mas nunca revelarei os seus nomes.
A cadeira de verga é a causa das suas discussões. Todo o seu terror emana desta cadeira de verga. Ela apareceu uma manhã, subitamente, sem qualquer razão, no pátio de entrada da casa deles. Concordaram os três que se tratava de um mau agouro. Um índice indiscutível da sua morte eminente. Agora, acreditam que se deixarem a cadeira no pátio de outra casa, evitarão as suas próprias mortes. Porém, todas as manhãs, a cadeira está de novo no seu pátio.
Esta noite, trazem a cadeira para o meu pátio. Estou a vê-los. Não tento detê-los. Parecem estar com tanto medo de que os apanhem com a boca na botija, que eu não suporto a ideia de os caçar. Vejo-os que deixam a cadeira e, num repente, desaparecem. Oiço-os correndo pelo quarteirão a boa velocidade, como se estivessem com medo de que a cadeira os perseguisse. Observo a cadeira. Não se mexe. Saio para o vento frio da rua, pego nela e atiro-a para o meio da estrada. O vento arrasta-a de novo para o meu pátio. Pego novamente na cadeira e instalo-a no meio da estrada. Fujo para casa.
Observo a cadeira da janela. Não se mexe. Deixa-se ficar ali, no meio da estrada, imóvel. Os faróis dos carros iluminam-na, mas ela não dá um passo. De tanto a observar, acabo por adormecer à janela. De manhã, ei-la de novo no meu pátio.

23/7/80
Homestead Valley, Ca

[«Crónicas Americanas», ©Sam Shepard,
Difel, pag. 76,77]

[Ruben P. Ferreira]

 

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