«Encontrei uma ave aquática, morta, no meio de um parque de estacionamento. Não havia carros. O pássaro estava em perfeitas condições, pelo menos exteriormente. Ainda mole e nem um sinal de sangue. Levei o pássaro para casa e meti-o no frigorífico. No dia seguinte, eu e o meu pai mostrámo-lo aos vizinhos e perguntámos se alguma vez tinham visto um pássaro assim. Ninguém tinha. Levámo-lo ao embalsamador, mas nem ele conseguiu dizer que género de pássaro era, embora todos concordássemos que devia ser uma ave aquática, porque tinha membranas natatórias. O embalsamador tinha uma teoria: o pássaro ia a voar quando viu o parque de estacionamento e confundiu a reverberação da luz no pavimento com a superfície de um lago. Ele achava que o pássaro se tinha esmagado contra o solo e partido o pescoço. Esta terrível explicação do embalsamador espantou-me tanto que, dias a fio, não consegui deixar de pensar no pássaro. Imaginava-me no lugar do pássaro, voando muito acima do parque de estacionamento, à procura de um lago. Por que carga de água estaria uma pássaro daqueles tão longe das terras onde existem lagos? Como se perde um pássaro?
30/1/80
Homestead Valley, Ca.»
[Ruben P. Ferreira]
