Uma história por dia 25

«Ele vem-me buscar todas as manhãs na sua camioneta vermelha. Vem sempre demasiado cedo. É sempre à pressa que arranjo a ração para as ovelhas, mesmo no último momento. Nunca estou satisfeito quando se trata de ir para o trabalho.
Seguimos sempre pelos mesmos campos. Ainda no escuro da noite. Passamos sempre pelo mesmo gado. Brilham, os seus focinhos brancos. Quase sempre vemos o mesmo coiote vermelho correndo ao longo da pastagem, lançando o mesmo uivo repetido. Ele aponta e diz: «Olha, lá está ele outra vez!» Diz isto sempre que o vemos.
Trato dos estábulos de cima abaixo. Os olhos ardem-me por causa do mijo do cavalo. As mãos ardem-me da cal. A luz vai irrompendo, através dos cedros.
Vão por duas éguas a cobrir esta manhã e querem que eu os ajude a lavar o garanhão. Dizem que é tempo de eu aprender. Esfregam o pénis do garanhão com uma esponja embebida em água e sabão. Deve medir, pelo menos, uma jarda. Como ele tenta escoicear-nos peámo-lo e torcemos-lhe os beiços. Ele continua a proceder como se pudesse arremessar-se contra nós e, por isso, vendamos-lhe os olhos com serapilheira e tapamos-lhe os ouvidos. Finalmente, acalma.
Ao almoço, faço o possível por comer sozinho, mas aparece a filha do proprietário que tenta sempre meter conversa. Veste umas calças de montar à inglesa e, por vezes, anda com um pequeno chicote com que dá pancadinhas leves no joelho. Acho que viu o National Velvet vezes demais.
À noite leva-me de volta e é a correr que dou novamente de comer às ovelhas, antes de escurecer completamente. Quando acabo, quase nunca me apetece ir para dentro de casa e cear. Por vezes deixo-me ficar lá fora e observo a minha família, andando de um lado para o outro dentro da casa. Por vezes, deixo-me estar assim durante muito tempo. Eles não sabem que eu os estou a ver.
22/9/80
San Francisco, Ca

Crónicas Americanas», ©Sam Shepard, Difel, pag. 61,62]

[Ruben P. Ferreira]

 

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